A promessa que muda tudo: eu não vou te interromper. [capítulos 1 a 3]


Tradução livre feita por mim, com base no livro The Promise That Changes Everything escrito pela Nancy Kline. Penguin Books Ltd.


Os capítulos 1 a 3 foram traduzidos por mim nesse artigo e os capítulos 4 a 7 foram traduzidos pela Marcelle Xavier aqui. Esses capítulos foram usados como base para o Grupo de Estudos realizado pelo Instituto Amuta em junho de 2021.


Cap.1: A Diferença


Eu não irei te interromper.

Eu prometo.

Eu não irei interromper as suas palavras - ou os seus pensamentos.

Imagine isso.

Imagine o alívio, as possibilidades, a dignidade.

Agora você tem um terreno que é seu.

Inexoravelmente.


Isto é para você. Tempo para pensar. Para sentir. Para descobrir o que você realmente quer dizer. Para dizer, para considerar. Para mudar. Para terminar as suas sentenças, para escolher as suas próprias palavras. Para se tornar - porque você pode confiar na promessa - um pouco ousado, até mesmo eloqüente. Para se tornar você.


E porque você sabe que eu não irei te interromper, você irá querer, quando terminar, saber o que eu penso também, mesmo que discordemos profundamente. Você abre o seu coração. E porque você, por sua vez, promete não me interromper, eu abro o meu.


Todos nós desejamos isso, a promessa de nenhuma interrupção, a promessa do interesse, a promessa da atenção enquanto nós pensamos, a promessa desse respeito por todos nós como seres humanos.


Nós ansiamos por aquela expansão suave e rigorosa que produz pensamentos sensíveis e sentimentos atenciosos.


Todos os dias, em todas as interações, vitais ou triviais, nós esperamos pelo tipo de presença que permita que nossos cérebros e corações se encontrem.

Nós nascemos para isso. Na verdade, de acordo com a ciência, nascemos esperando por isso. Nossos cérebros precisavam disso para continuar se formando quando éramos crianças, quase marsupialmente.

E eles ainda precisam. Para serem totalmente Homo Sapiens, nossas mentes e corações precisam dessa promessa.


E ainda assim?


Não está em nenhum lugar. Nós olhamos ao redor. Nós não conseguimos encontrar. Nós só vemos interrupção. Nossos colegas interrompem. Nossos profissionais interrompem. Nossas pessoas amadas interrompem. Nossos amigos interrompem. Nós interrompemos.


Aonde, em seus círculos, você pode apontar para uma única pessoa que você tem certeza que não irá te interromper ou te impedir quando você estiver falando? Quem, nos seus círculos, já fez essa promessa para você? E manteve? E você? alguma vez já fez essa promessa para alguém?


Muito provavelmente não. Essa é a chocante verdade. A única coisa que nós podemos absolutamente contar na vida é que nós seremos interrompidos quando começarmos a pensar.


Na verdade, de acordo com o Instituto Gottman em Seattle, há três anos atrás o tempo médio de escuta, inclusive de “ouvintes profissionais”, era de vinte segundos. Agora é onze segundos. Onze segundos! E aqueles entre nós que são pagos para ouvir - coaches, terapeutas, médicos, gerentes, líderes, professores, pastores, conselheiros - pagaram por infindáveis instruções sobre como ouvir. Mas as instruções são efetivas em como inserir, como fazer barulho, como justificar o povoamento do silêncio com nossa própria visão. É a escuta que espera que interrompamos. Ou é o que parece. Certamente, notavelmente, ela não exige que prometamos não fazê-lo.


E então nós interrompemos. Todos nós. Pagos ou não. Parceiros e parentes. Líderes e aprendizes. Assalariados e acionistas. Nos movemos pelos nossos dias e anos interrompendo os outros e falhando em nos esquivar quando os outros nos interrompem.


E isso importa. A interrupção nos diminui. Diminui o nosso pensamento. Diante da interrupção o nosso próprio pensamento quase não tem a chance de se formar. Isso significa que as nossas decisões são mais fracas; nossos relacionamentos são mais estreitos. A interrupção de pensamento é tão destrutiva, na verdade, que o que produzimos como espécie, por mais avançado que seja no reino animal, é provavelmente inferior às realizações que a mente humana ininterrupta poderia ter produzido durante aqueles eras.


Na verdade, você poderia mencionar praticamente qualquer “questão que te persegue” em sua vida, que eu iria me perguntar se você já não teria resolvido isso, caso você não tivesse sido interrompido tantas vezes até agora. Eu também poderia nomear quase qualquer inovação, desde motores a vapor até explorações ao ciberespaço, e argumentar que a humanidade poderia muito bem ter pensado em coisas mais elegantes e nutritivas se nosso pensamento não tivesse sido tão interrompido pelo caminho.