Como atrapalhar o fluxo do amor nas organizações - a falácia do modelo de competências

Edição livre do livro Nove mitos sobre o trabalho de Marcus Buckingham e Ashley Goodall feita por Marcelle Xavier


#Mito 1: Os funcionários mais completos são os melhores

Observe Lionel Messi driblando. Você verá um homem pequenino, com pés mágicos, correndo no que parece ser uma velocidade duplicada, passando por zagueiro após zagueiro, até entrar na grande área e chutar.

Aos 13 anos Messi foi levado de casa para La Masia, a lendária escolinha de base do Barcelona. Ali, deu continuidade a um tratamento com hormônios para seu problema de crescimento, e esperaram que sua estatura física alcançasse a estatura de seu talento. Nunca alcançou: ele parou em 1,70 metro, e continuou magricela como os meninos que jogam nas ruas das villas miserias argentinas.

De alguma forma, porém, isso não parecia fazer diferença. Seu dom era tão extraordinário que tornava irrelevante sua pouca altura. Ele entrou para o time principal do Barcelona aos 17 anos e tempos depois se tornaria o melhor jogador de futebol do mundo e, na opinião de muitos, o maior de todos os tempos.

E Lionel Messi não é apenas baixo, mas também canhoto. Extremamente canhoto. Sua proporção de uso do pé “bom” em relação ao pé “cego” permanece constante em torno de 10 para 1. A título de comparação, a proporção do destro Cristiano Ronaldo fica em torno de 4,5 por 1. Em outras palavras, Messi não é apenas um jogador canhoto. Ele é um jogador que faz tudo que precisa ser feito com a bola apenas com o pé esquerdo.

E no time adversário, é claro, todos têm plena consciência disso. Porém, mesmo com o prévio conhecimento de que ele vai jogar com o pé esquerdo o tempo todo, eles continuam a ser enganados quando ele movimenta o corpo na frente deles. Messi cultivou essa característica de tal forma – treinou para fazer isso com tamanha velocidade e precisão – que, em vez de ser uma limitação, lhe propicia uma vantagem constante, descomunal e desleal.

Evidentemente, ele deve ter treinado por 10 mil horas ou mais, porém, o que ele transmite, ao fintar e correr na direção do gol, não é disciplina e comprometimento, e sim alegria; alegria pura, inconsciente, irresistível em exercer seu ofício.

Messi exerce seu ofício em um dos maiores palcos do esporte mundial, mas você pode já ter sentido admiração semelhante por um colega de trabalho. A naturalidade, a fluidez e a integridade de algo feito de maneira brilhante ecoam dentro de nós, nos atraem e despertam nossa simpatia. Você também vai reconhecer a alegria de Messi quando vivenciar isso no seu próprio desempenho – ou seja, quando expressar seus próprios pontos fortes.

Essa sensação, na origem, não é gerada pelo fato de você ser muito bom em alguma coisa. Em vez disso, é criada pelo fato de aquela atividade fazê-lo se sentir bem. Um ponto forte, na definição correta, não é “algo em que você é bom”. Pode haver muitas atividades em que você seja bastante competente graças a sua inteligência, seu senso de responsabilidade ou seu treinamento disciplinado e que, no entanto, o entediam, o deixam indiferente ou até o desgastam.

O que é um ponto forte?



“Algo em que você é bom” não é um ponto forte; é uma capacidade. Sim, você é capaz de demonstrar grande capacidade – mesmo que por pouco tempo – em certo número de coisas que não lhe proporcionam qualquer satisfação. Um ponto forte, por outro lado, é uma “atividade que o faz sentir-se poderoso”.

Antes de realizá-la, você se sente ansioso. Enquanto a realiza, o tempo parece passar depressa, e um momento se confunde com o outro. E, depois de realizá-la, mesmo que esteja cansado e não se julgue preparado para fazer tudo de novo, ainda assim você se sente realizado e orgulhoso.

É essa combinação de três sentimentos diferentes – expectativa positiva antes, fluidez durante, satisfação depois – que faz de determinada atividade um ponto forte. E é essa combinação de sentimentos que produz em você a ânsia de realizar aquela atividade repetidas vezes, treiná-la continuamente, vibrar com a chance de realizá-la de novo.

Um ponto forte é muito mais apetite que capacidade, e é o apetite, na verdade, que alimenta o desejo de continuar trabalhando naquilo e que, no final das contas, produz o aprimoramento necessário para a excelência no desempenho.

Evidentemente, é possível que haja algumas atividades em que você possa ter toneladas de apetite e pouquíssima aptidão natural. De qualquer maneira, de modo geral parece que, nós, seres humanos, temos uma incapacidade congênita de sentir amor profundo por uma atividade em que somos péssimos. Em vez disso, somos atraídos por atividades que nos dão satisfação.

Cada um de nós, é claro, é diferente do outro, e por isso cada um encontra alegria numa atividade diferente. Mas o fato é que todos nós conhecemos esse sentimento. E, quando nosso trabalho proporciona esse ingrediente da alegria, quando amamos de verdade aquilo que fazemos, é aí que somos magníficos de verdade.

Stevie Wonder, que claramente entende um pouco de como cultivar os próprios pontos fortes e compartilhá-los com o mundo, foi quem melhor definiu: “Você nunca vai sentir orgulho do seu trabalho se não encontrar alegria nele. Seu melhor trabalho sempre é um trabalho alegre.”

E é isso que sua empresa espera que seu trabalho proporcione a você. Quando seus líderes dizem que querem que você seja criativo, inovador, colaborativo, resiliente, intuitivo e produtivo, o que eles querem dizer é: “Queremos que você preencha suas horas de trabalho com atividades que lhe deem alegria, com tarefas que lhe proporcionem satisfação.”

É estranho – e triste – que essa série de observações costume ser desprezada no ambiente corporativo, talvez porque os negócios estejam associados a rigor, objetividade e vantagem competitiva, e, comparativamente, a ideia de encontrar alegria no trabalho como precondição da excelência pareça uma leviandade. É como se, no mundo corporativo, a missão fosse dar um jeito em problemas, por mais penoso que seja; algo como encontrar prazer no trabalho pertenceria ao reino dos poetas.

Porém, os números não mentem. Das oito condições que são a marca das equipes de mais alto desempenho, há uma que sobressai mais que todas – em pesquisa após pesquisa, qualquer que seja o setor e qualquer que seja o país – como o indicador individual mais potente da produtividade de uma equipe. É a sensação, de cada integrante da equipe, de que “Tenho a oportunidade de usar meus pontos fortes todos os dias no trabalho”. O caráter diário na sensação de que o trabalho favorece os pontos fortes é uma condição crucial do alto desempenho.

Por algum motivo, nas melhores equipes, o líder é capaz não somente de identificar os pontos fortes de cada um, mas também de realizar alterações nas funções e responsabilidades de modo que os integrantes da equipe, individualmente, sintam que estão realizando um trabalho que demanda o uso de seus pontos fortes todos os dias.

O casamento entre os pontos fortes e o trabalho é a alavanca mestra das equipes de alto desempenho: se você puxar essa alavanca, elevará o nível de todo o resto; se não puxar, todo o resto será enfraquecido.

O problema dos modelos de competênci