Convite: o primeiro passo de qualquer relação

Sobre adotar o convite como forma de ser

Um dos conceitos mais simples e poderosos que já encontrei na minha investigação sobre relacionamentos e comunidades é o de CONVITES. Afinal, toda relação e toda interação começa por um convite. Mas quantos convites estamos fazendo e quanta intenção colocamos neles?


Todos nós temos a nossa dose de frustração em relação aos convites que fazemos e recebemos. Eu já me senti frustrada quando senti que faço muito mais convites que recebo. Já me irritei quando as pessoas não aceitaram meus convites. Já fiquei triste quando fiz um evento que pouquíssimas pessoas foram.


A importância de evitar suposições

O nosso medo de rejeição e de incomodar às vezes é tão grande que nos paralisamos, e simplesmente deixamos de convidar. Muitas vezes entramos em uma espiral de inferências e julgamentos quando nossos convites são negados.


“Será que essa pessoa não se importa comigo? Será que eu não tenho nenhum grau de importância na vida delas? Será que estou incomodando? Sou uma má companhia? Meu evento não tem valor? Oh meu Deus, EU não tenho valor?” Mas muitas vezes nada disso é verdade, e de maneira geral, nossas relações ganham mais quando assumimos o melhor e não o pior das pessoas e situações.


“Fazemos convites, a despeito do nosso próprio isolamento, a despeito da nossa expectativa de esperarmos sermos convidados, de querer que o outros dêem o primeiro passo, de desejar que os outros nos alcancem, nos reconheçam, e nos dêem a estrela dourada que nunca veio no momento certo. Isso não vai acontecer, por isso damos o primeiro passo.” Peter Block

Convites tem poder intrínseco

Eis uma coisa que aprendi sobre os convites. Mesmo que meu convite seja rejeitado, o simples ato de convidar já tem poder. Para o escritor Charles Vogl, o ato de fazer um convite passa pelo menos duas importantes mensagens:


  1. “Eu quero me conectar com você”. Talvez nesse momento a pessoa não tenha tempo ou energia para aceitar seu convite, mas a informação de que uma outra pessoa no mundo quer se conectar com ela tem valor intrínseco.

  2. “Eu sou uma pessoa capaz de reunir pessoas”. Em um mundo de solidão sistêmica, é reconfortante saber que alguém ao nosso redor está se preocupando em criar conexões.

“O mero ato de convidar pode ter mais significado do que qualquer coisa que aconteça no encontro. Até mesmo para aqueles que não aparecem. “ Peter Block


Como fazer convites poderosos e respeitosos?


O convite tem poder intrínseco, e a forma como ele é feito pode influenciar se as pessoas irão aceitá-lo, e como irão chegar para o encontro. Listei 4 aspectos que aprendi sobre convites poderosos:


1. Só é um convite se, ao recebê-lo, a outra pessoa sente que sua presença é importante. Isso significa que um convite não é um anúncio e quanto mais pessoal e específico melhor.


Nas vezes que experimentei fazer convites pessoais, e não em grupos de whatsapp ou através de redes sociais, tive muito maior engajamento - tanto nas minhas relações pessoais quanto no trabalho que desenvolvo com comunidades. (mesmo se o grupo tiver pouquíssimas pessoas)


Quando o grupo é muito grande, e a falta de tempo me impede de fazer convites pessoais a todos, tento fazer uma lista de ao menos algumas pessoas que irão receber convites mais pessoais. Nos convites coletivos, ou seja, anúncios, vejo que a linguagem pode ajudar a explicitar o valor da presença das pessoas no evento.


2. Se existe qualquer tipo de manipulação, coerção ou consequência para pessoas que optam por dizer “não”, então não é um convite.


Muitas vezes, as consequências para a recusa de um convite são implícitas, seja em falas manipuladoras como “ah não, você nunca topa nada que eu chamo”, seja na decisão de excluir aqueles que não participam “ah, ela nunca vai, não vou chamar mais”.


Nas empresas, muitas vezes quem não participa é mal visto ou mal avaliado por seus gestores. E trocar a punição por recompensa não muda muito - prometer um prêmio para incentivar a participação já torna a participação menos genuína.


É muito mais generoso da nossa parte tentar incluir aqueles que não participaram, seja da forma que for, e não excluí-los pela recusa à participação. Precisamos ter em mente que, se as pessoas não têm escolha, elas não assumem nenhuma responsabilidade a partir daí.


3. O convite invoca maior responsabilidade quando existe clareza dos obstáculos e do compromisso de quem aceita participar.


Geralmente queremos tanto que as pessoas participem que nossa tendência é ocultar que sua participação significa um comprometimento com alguns aspectos importantes da experiência. Nossa tendência é buscar eliminar qualquer fricção que dificulte a participação.


Mas, partindo dessa lógica, desconsideramos que quanto mais as pessoas já sabem sobre o que será requerido delas, maior a sua capacidade de realmente fazer a escolha de estar. E ainda, quando temos informação sobre os obstáculos, chegamos no encontro com um nível maior de comprometimento.


Não precisamos ter medo de estabelecer limites, tais como: nossa tolerância a atraso é de 5 minutos, se prepare para interagir com pessoas desconhecidas, desejável manter a câmera aberta durante o encontro, só venha se puder ficar até o final, é fundamental a leitura de um material prévio. Não tenha medo de limites, afinal, não queremos uma sala cheia de pessoas ausentes.


4. Os convites são mais poderosos quando não ficam restritos às mesmas pessoas de sempre e são capazes de incluir novas vozes


Quem nós convidamos tem um enorme impacto no que vai acontecer no encontro.


Muitas vezes, achamos que precisamos convidar todo mundo e que quanto mais pessoas melhor, mas isso não é necessariamente verdade. Mas, com qualquer nova pessoa que adicionarmos ao encontro, cria-se uma configuração diferente que irá influenciar em como as interações irão se desdobrar.


Também temos a tendência a convidar sempre as mesmas pessoas, e ter medo ou vergonha de convidar pessoas mais distantes ou até desconhecidas. Mas todos nós temos ganhos significativos ao ampliar nossos círculos, e na oportunidade de conviver com pessoas diferentes de nós.


A pergunta é: quem posso convidar para esse encontro ser mais significativo?


Tenho aprendido nos últimos tempos que a minha solidão é proporcional ao número de convites que eu não faço, e minhas comunidades são um indicativo de quão intencional e corajosa eu consigo ser com meus convites. Para você, o que faz um convite ser poderoso e atraente?


PS: Esses posts foram criados com apoio do livro “Community” do autor Peter Block e do episódio “Invitations” do podcast “Old Wisdom New Era”, anfitriado por Charles Vogl