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  • Foto do escritorMarcelle Xavier

Quero pertencer para que minha força não seja inútil

“O objetivo da comunidade é assegurar que cada membro seja ouvido e consiga contribuir com os dons que trouxe ao mundo, da forma apropriada. Sem essa doação, a comunidade morre. E sem a comunidade, o indivíduo fica sem espaço para contribuir. A comunidade é uma base na qual as pessoas vão compartilhar seus dons e recebem as dádivas dos outros” Sobofu Somé (Espírito da Intimidade)

No início do século 21, o psiquiatra Dr. Derek Summerfield foi ao Camboja entender o efeito das minas terrestres deixadas para trás pelos EUA na guerra na saúde mental das pessoas locais. Nos seus estudos, o psiquiatra conheceu a história de um homem que havia perdido sua perna em uma dessas minas e ficado em estado depressivo.


Ao conversar com o homem e a comunidade, descobriu que sua depressão estava relacionada a dificuldade que ele sentia de trabalhar no seu antigo emprego nos arrozais - ao tentar trabalhar, ele sentia muita dor, e era assombrado pelas lembranças do acidente. Sua dificuldade em fazer algo que passou toda a sua vida fazendo lhe dava um profundo desânimo. Sua vida havia perdido significado e ele tinha vontade de parar de viver.


Foi aí que a comunidade, ao perceber o que estava acontecendo, teve uma ideia. Eles se juntaram para comprar uma vaca leiteira para o homem, pois perceberam que seria totalmente possível que ele assumisse o ofício de trabalhar como criador de gado leiteiro. Nos meses e anos que se seguiram, sua vida mudou e sua depressão profunda foi embora.


Eu adoro essa história porque mostra pra mim o quanto é importante para nós poder contribuir com o mundo e com as nossas comunidades, e o quanto a comunidade precisa criar as condições para que as pessoas encontrem seus papéis. Se esse homem estivesse em um grande centro urbano de uma cidade ocidental, possivelmente ele encontraria soluções individualistas para o seu problema e não uma comunidade disposta a entender e apoiá-lo para modificar seu contexto.


Essa história do homem que curou sua depressão com uma vaca leiteira despertou em mim a vontade de fazer pequenos experimentos. Pedir pra sua avó compartilhar aquela receita do bolo que só ela sabe fazer, pro seu pai criar caixas de madeira para sua festa de aniversário, para sua amiga lhe indicar um livro perfeito para o seu momento, para o seu amigo fazer uma playlist já que você não conhece ninguém que sabe tanto de música como ele.


Eu comecei a observar como as pessoas se sentem quando são convidadas a oferecer suas contribuições. Notei que normalmente elas se sentem úteis e bem consigo mesmas, além de se sentirem mais conectadas com a comunidade no entorno.


Voltando no significado da palavra pertencimento, essa constatação faz todo sentido. O pertencimento surge quando sentimos que somos valorizadas e necessárias para um grupo, e quando a gente acha que quem nós somos não contribui ou faz tanta diferença assim, nossa tendência é desengajar e procurar algum espaço onde a nossa contribuição importa. E se a gente não encontra nenhum lugar onde podemos contribuir, como já sabemos, podemos ser acometidas pelo estado de desânimo da história acima.


A contribuição nasce no encontro


As comunidades precisam ser espaços onde as pessoas vão para descobrir e expressar sua potencialidade. O problema é que muitas vezes não damos espaço para que as pessoas encontrem e expressem o que elas têm para expressar.

Nas organizações é muito normal criarmos um escopo de competências, qualidades, habilidades e tarefas muito fechadinho. Nós contamos para as pessoas como elas devem ser para que sejam aceitas no grupo, e não abrimos muito espaço para que elas se expressem e encontrem o seu jeitinho de contribuir.


Existe um modelo de como as pessoas devem contribuir, e quão mais próxima você tiver dele, melhor. Nesse caso, ao invés de eu me sentir bem comigo mesma, eu me sinto sempre em dívida, porque por mais que eu me esforce, nunca vou alcançar esse ideal. Ao invés de pertencer, eu vou tentar me encaixar.

Organizações são excelentes fábricas de clones - queremos que todas as pessoas sejam iguais, o que além de ser uma violência as pessoas também é um desserviço para a criação de uma cultura realmente colaborativa.


Na natureza, a gente pode ver que se os animais são muito parecidos, eles vão competir e não colaborar. Eles pensam “se você não pode assumir um trabalho diferente do meu, não tem porque a gente colaborar”. São os bichinhos que têm contribuições diferentes que colaboram.


Vejamos as formigas. Algumas trabalham ao ar livre pastoreando pulgões e lagartas, outras lidam com a patrulha e defesa, algumas cuidam do lixo, algumas têm filhotes e cuidam dos ninhos comunitários. Todas essas funções são importantes para que essa seja uma das espécies mais bem sucedidas na natureza.



“Como formigas, nós também nos sobressaímos em diferentes tarefas, e temos diferentes personalidades. A sociedade permite, e requer, que todas as pessoas floresçam.” Tamsin Wooley

A contribuição das pessoas nasce do encontro entre o que elas têm para contribuir com o que aquela comunidade específica tem de necessidade. Eu noto que ficar presa em uma única forma de contribuição é uma receita para a frustração.


Quer um exemplo? Quando eu estou com as suas amigas, sou uma ótima cozinheira, mas quando estou com a minha família, não tenho a menor chance. Preciso então encontrar outra forma de contribuir com essa comunidade, senão posso até mesmo entrar em comparação e me desconectar do meu valor próprio. Já aconteceu comigo várias vezes de pensar “nossa, eu achei que eu era boa em escrever (ou contar piada, ou escutar as pessoas - substitua pelo que quiser), mas aqui nesse grupo essa outra pessoa faz isso tão melhor que eu. Eu não sirvo pra nada.”


E às vezes é muito difícil a gente encontrar nosso papel em um grupo porque tem uma ou duas pessoas que mesmo cheia de boas intenções, tentam dar conta de tudo. Eu faço isso muitas vezes no Instituto Amuta, quero dar conta de tudo e criar uma experiência perfeita, mas para uma pessoa descobrir o seu papel ela precisa encontrar buracos. Quem parece perfeito, não precisa de nós.


Eu percebo que as pessoas que colaboram mais com o Amuta hoje, são aquelas que identificaram um ponto onde eu preciso de ajuda e se ofereceram para ajudar. Eu precisei abrir minha vulnerabilidade - minhas falhas, dificuldades e imperfeições, para que algumas pessoas sentissem que poderiam colaborar. Aprendi com a Lele Araújo que nas comunidades, assim como na natureza, participação e vínculo nascem onde há fragilidade e toda colaboração nasce do encontro de uma potencialidade com uma fragilidade.


Uma pessoa encontra pertencimento nas nossas comunidades quão mais se tornam conscientes do impacto que podem ter no todo e fazem a escolha de se comprometer. É quando pertencemos e não nos encaixamos, entramos em unicidade sem nos perder em conformidade.


(Fontes: Lost Connections: Why You're Depressed and How to Find Hope. by. Johann Hari, Alessandra Araújo, Tamsin Wooley,


Pesquisa: (que embasa nossa missão do dia)

Estudo realizado para desenvolver um modelo multinível de bem estar de funcionárias combinou o uso de pontos fortes e teorias de personalidade partindo da hipótese de que os indivíduos experimentariam maior bem-estar nos dias em que usaram seus pontos fortes. No estudo, 87 cadetes navais noruegueses preencheram uma pesquisa geral e, em seguida, completaram um questionário diário por 30 dias consecutivos. Os resultados mostraram que o uso diário de pontos fortes estava positivamente relacionado ao afeto positivo diário e ao engajamento no trabalho, após o controle dos níveis anteriores das variáveis dependentes.

(Fonte: Daily strengths use and employee well-being: The moderating role of personality)


Nome do artefato: Muro de forças Categoria: contribuição Tipo: ritual Objetivo: dar visibilidade para os pontos fortes das pessoas e estimular que eles sejam usados a favor da comunidade. Tempo: 2h + 20min por mês Dificuldade: fácil

Passo a passo:

  1. Cada pessoa deverá escolher aproximadamente 3 pessoas da comunidade para apoiá-la respondendo a pergunta: de quais formas eu já enriqueci a sua vida ou a comunidade e quais qualidades você acredita que tenho que fluem naturalmente? É muito bom quando as qualidades apresentadas acompanham histórias que exemplificam a sua manifestação.

  2. Após partir desse olhar externo, peça que cada uma faça uma reflexão interna: o que eu gosto de fazer e que também parece ter valor para as pessoas e para a comunidade como um todo?

  3. Peça que cada pessoa escreva de 3 a 5 contribuições que gostaria de fazer para a comunidade. Uma dica importante: não se prenda apenas a habilidades técnicas, podem ser coisas como: tornar o ambiente mais leve, fazer convites irrecusáveis, nos apresentar coisas novas, etc.

  4. Faça uma colheita das respostas e torne a informação visível para todas. Você pode fazer um quadro com as fotos e qualidades de cada uma. Estimule que as pessoas peçam ajuda umas às outras e distribuam tarefas partindo dos pontos fortes apresentados no quadro.

  5. Para tornar o artefato mais forte, peça que mensalmente as pessoas acessem o mural deixando recados para as pessoas que tornaram a sua vida mais rica no período, de modo a ampliar progressivamente a consciência de como cada uma pode gerar valor para a comunidade.



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