A teoria dos fios vermelhos

Todas nós realizamos atividades no nosso dia a dia de trabalho que nos nutrem. Quando estamos envolvidas com esse trabalho é comum entrar em “estado de fluxo” - não vemos o tempo passar, nossa identidade fica temporariamente suspensa e sentimos que entramos em harmonia com a vida.


Diferente de tantas tarefas inseridas nas nossas rotinas, não ficamos cansadas ao final dessas atividades. Pelo contrário. Quando as finalizamos, nos sentimos orgulhosas, animadas e energizadas.


Para os gregos, esse estado perseguido por muitos de nós se chama Eudaimonia. Eudaimonia é o que acontece quando somos guiadas pela expressão do nosso ser em seu estado mais elevado.


Partindo de uma visão budista, podemos entender que essas atividades influenciam o estado de felicidade genuína. A felicidade que reside não da euforia que essas atividades até podem causar, mas no florescimento das nossas virtudes humanas mais elevadas. Por isso, desejar e sustentar espaço para que o outro expresse suas qualidades mais elevadas é uma das mais poderosas expressões de amor.


“A visão mais linda é que tem um sonho dentro do amor que é o sonho da felicidade genuína, o sonho do florescimento das virtudes mais elevadas humanas. Amar o outro é convidá-lo para esse sonho de felicidade genuína.” Jeanne Phili

Logo, amamos o nosso trabalho quando ele se torna uma expressão de quem nós somos. Nos sentimos amadas nas organizações que pertencemos, quando encontramos pessoas que nos convidam para o florescimento de nossas próprias virtudes. Cultivamos uma cultura amorosa, quando abrimos intencionalmente espaço para que as pessoas possam moldar seu trabalho até que ele se torne uma expressão de quem realmente são.


Para o autor Marcus Buckingham, nosso trabalho é composto por muitas atividades, que são como fios de uma trama. Alguns fios, os fios vermelhos, são feitos de um material potente, que nos dão força e base para todo o tecido. Os fios vermelhos são constituídos pelas atividades que a gente ama, e seguir esses fios de amor é para o autor o real caminho para encontrar e manifestar os nossos pontos fortes.


“Normalmente, pensamos em nossos pontos fortes como aquilo em que somos bons e em nossos pontos fracos como aquilo em que somos ruins. Mas, essa não é a melhor definição de pontos fortes ou pontos fracos. Ponto forte é qualquer atividade que o fortalece e ponto fraco é qualquer atividade que o enfraquece, mesmo que você seja bom naquilo.” Marcus Buckingham


O que as organizações fazem com nossos fios vermelhos?


A visão de Buckingham é disruptiva porque vai contra a forma como a maioria das organizações lidam com o desenvolvimento humano. A história que nos contamos dentro das organizações é que:


Para potencializar seus pontos fortes as pessoas precisam descobrir onde performam mal, e seguir seus pontos fortes leva a preguiça e complacência

Há alguns meses atrás, eu estava apoiando uma organização em um programa de aprendizagem, e pedimos que as participantes levantassem em uma coluna coisas que são muito boas em fazer e na outra coisas que querem aprender a fazer melhor. Antes de começar a atividade, uma das participantes fez uma pergunta óbvia, mas que me gerou um estalo:


“Eu posso querer aprender algo que eu já sou bom?”

É lógico que pode. Lá estava eu tentando criar um programa de aprendizagem “disruptivo” e replicando mesmo que sutilmente a lógica equivocada de que aprendizado é remover deficiências. Focar nos pontos fortes não significa que você vai só desenvolver e aprender o que já é bom, nem sequer que você vai ignorar completamente tudo aquilo que é ruim.


“Um ponto forte é muito mais apetite que capacidade, e é o apetite, na verdade, que alimenta o desejo de continuar trabalhando naquilo e que, no final das contas, produz o aprimoramento necessário para a excelência no desempenho.” Marcus Buckingham

Focar nos pontos fortes é investir a nossa energia naquilo que nós temos de único e naquilo que nos alimenta, ou seja, nos nossos fios vermelhos. E nesse caminho vamos encontrar nossa própria excelência. Mas para isso precisamos olhar para outra história que é contada dentro das organizações:


Para que as pessoas consigam performar e exercer sua função, elas devem acumular uma série de competências específicas do seu cargo, ou seja, entrar em uma caixa

Uma prática comum das organizações é criar um modelo de competências, na qual explicita as competências necessárias e o nível de proficiência esperado para cada função e para diferentes níveis hierárquicos.


O que esse modelo nos conta é que para sermos promovidas aos cargos que almejamos devemos ser muito parecidas com nossos chefes. Ou melhor, com a expectativa que foi colocada em cima delas por aqueles que criaram esse modelo.


O que Marcus Buckingham apresenta a partir das suas pesquisas é que esse modelo é uma grande abstração por dois motivos:

  1. É impossível mensurar competências pois elas são uma mistura de estado - que é algo provisório e imensurável, e características - que só poderiam ser medidas através de testes de personalidade complexos (além de que tentar medir para mudá-las via treinamento é improdutivo).

  2. As pessoas se tornam excelentes não quando acumulam competências específicas, mas de maneiras muito singulares.


“Pesquisas sobre alto desempenho revelam que a excelência é idiossincrática, ou seja, cada funcionário de alto desempenho é único e singular, e atinge a excelência exatamente por ter compreendido essa singularidade e tê-la cultivado com inteligência. Crescer no final das contas, não é uma questão de descobrir como adquirir habilidades que nos faltam, mas de descobrir como ampliar o impacto onde já possuímos habilidade.” Marcus Buckingham

As organizações não têm o poder de invocar amor, pois cada um de nós precisa encontrar e seguir seus fios vermelhos (que são únicos porque são nossos). Mas as empresas têm sim o poder de criar ou o contexto para o amor emergir, ou o sufocamento do amor através de uma série de artefatos que destroem nossos fios vermelhos.


Toda empresa deseja que seus funcionários desenvolvam seus pontos fortes - não é atoa que gastam milhares de reais em treinamento ano após ano. As empresas também precisam que as pessoas se sintam motivadas, para que tenham um bom desempenho em suas funções.


Mas paradoxalmente, as organizações criam processos, rituais, sistemas que ao invés de potencializar as pessoas, inibem o que as torna únicas, e assim atrapalham o desempenho que tanto querem evocar. O que as pesquisas parecem apontar é que equipes de alto desempenho, são aquelas nas quais as pessoas percebem que têm a oportunidade de usar os pontos fortes no dia a dia de trabalho, pessoas que são estimuladas a descobrir e seguir seus fios vermelhos.


Cultivar amor nas organizações criando o container para que as pessoas sigam seus fios vermelhos é uma forma de trazer à superfície o que cada um tem de único. É cultivar eudaimonia, permitindo que as pessoas sejam guiadas pelo seu estado mais elevado, pelos pontos que as torna mais fortes, por aquilo que as torna singulares.