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  • Foto do escritorMarcelle Xavier

Amar é perceber


Se você prefere ouvir o conteúdo, escute em formato de podcast:https://bit.ly/amarperceber

Um dos maiores desafios das relações é o de se adaptar. Quantos casais estão infelizes porque não conseguiram respeitar as mudanças de desejo, de momento de vida, de pensamento, dos indivíduos? Quantos casais estão infelizes porque não conseguiram reinventar a relação? Quantas comunidades perderam o sentido porque não conseguiram integrar novas necessidades dos seus membros?


Por outro lado, quantos casais criaram uma dinâmica violenta quando uma pessoa impôs à outra o seu ritmo de mudança (por exemplo, casais em que uma parte quer abrir a relação e a outra não)? Quantas organizações fizeram mudanças radicais que tentaram enfiar goela abaixo das pessoas, causando extremo sofrimento e instabilidade?


Partindo da perspectiva do Design, eu sempre acreditei que relações saudáveis são aquelas que são capazes de se movimentar, mas eu tenho refletido cada vez mais sobre o ritmo e o modo de fazer essas mudanças.


Muitas vezes o ímpeto de mudar é tanto, que não honramos o caminho percorrido para nos trazer até aqui, o caminho que permitiu que essa relação surgisse, sobrevivesse, nos trouxesse tantos momentos incríveis. Ou ao contrário, estamos tão apegadas com o que foi, que não abrimos espaço para o que faz sentido agora.


Rejeitar o velho e exaltar o novo, ou rejeitar o novo e exaltar o velho são portanto dois lados da mesma moeda. Tamanho fetiche pelo passado e pelo futuro na realidade nos desconecta da real possibilidade de mudança que reside no presente. Como então ficar no presente, perceber e implementar ações possíveis e disponíveis para cuidar e evoluir as nossas relações?


Meu palpite é que o caminho para “estar”, “agir” e “influenciar” o presente reside na própria etimologia da palavra “presente”. A origem da palavra presente denomina aquela que assiste ou que se oferece a alguém. Estar no presente é, então, oferecer atenção, lembrando que o simples ato de prestar atenção permite que algo exista e seja nutrido. E isso é amor.


Compreender e aceitar a mudança que é possível de ser feita, que está disponível para as pessoas, que vai ser um passo evolutivo e não destrutivo é um ato de amor. É por isso que amar é perceber.




A mudança é parte da vida, e a estabilidade também

Na natureza funciona assim: qualquer coisa que perturba um sistema o ajuda a se reorganizar e evoluir, encontrar uma nova forma, se recriar. O nome científico para isso é estruturas dissipativas, e embora essa seja a forma como a natureza opera, definitivamente não é a forma como desenhamos nossas relações e comunidades.


De maneira simples e objetiva, a gente pode:

  • Substituir: lidar com o nosso desconforto e nossos conflitos como se eles fossem indicadores de que algo está errado, que as pessoas estão falhando ou que a relação está se desfazendo,

  • Por: olhar para esses desconfortos como sinais de que algo precisa se movimentar para aquela relação continuar fazendo sentido - ou até mesmo que evolua, se aprofunde, fique mais significativa e interessante.


“O crescimento vem do desequilíbrio e não do equilíbrio." Seed + Sparks

Tamanho medo da mudança acontece porque (pasmem) também faz parte da nossa natureza conservar o que foi criado. Nós evoluímos porque conseguimos nos manter seguras, e para isso queremos tornar o mundo previsível. E como a gente quer continuar sobrevivendo, a tendência natural é escolher o caminho certo e não o caminho desconhecido.


É por isso que um dos maiores paradoxos das relações é lidar com duas necessidades totalmente reais mas aparentemente opostas: segurança e aventura, preservar e trair.


Muitas vezes esse paradoxo (que está em todas nós) é personificado - acreditamos que temos os grupos das transgressoras e o grupo dos conservadoras, a pessoa que quer preservar e a pessoa que quer trair. Mas para que possamos sincronizar o movimento nas relações, precisamos reconhecer que todas nós precisamos conservar algo e todas nós precisamos mudar.


E a partir daí, podemos aumentar a nossa capacidade de perceber qual movimento cuida e não destrói os nossos vínculos e relações.


Um modelo para perceber e influenciar o movimento


O modo como eu tenho feito esse movimento de percepção amorosa é através de um modelo que eu conheci no HSD Institute. Esse modelo nos ajuda a compreender como está o ritmo de mudança de uma relação ou comunidade, para que assim eu possa ser capaz de influenciar o caminho ou a velocidade dessas mudanças.


Esse modelo revela que relacionamentos que buscam extrema estabilidade e negam a mudança embora possam ser confortáveis podem entrar em entropia, ou seja, perder energia de mudança até o ponto daquela relaçã


o se tornar irrelevante. Nessas relações normalmente tem baixa troca e baixa diferença, e provavelmente a gente não está encontrando espaço para explorar e conversar sobre aqueles pontos em que a gente diverge - ou pior, a gente foi se fundindo tanto que nem mesmo consegue reconhecer as nossas singularidades.



No extremo oposto, relacionamentos que estão o tempo todo mudando, embora tenham muita energia e aprendizado, pode ter um conflito tão ativo que falta tempo de integrar as mudanças e pode até colapsar. Nessas relações a troca é alta e a diferença também, e talvez seja o caso de diminuir a diferença explicitando os pontos que temos em comum ou diminuir a troca dando um respiro e um tempo nas DR’s (conversas).


No meio do caminho, existem também os relacionamentos com muita troca e baixa diferença, que embora tragam mais estabilidade e conexão, pode se tornar ineficiente em gerar mudança, até o ponto de ficar chato. E aqueles que têm pouca troca e muita diferença, por um lado oferecem um espaço de respiro e de mudanças internas importante para desativar o conflito, pode ser uma forma de colocar as coisas pra debaixo do tapete criando um potencial explosivo ou afastar as pessoas de vez.



E o que a gente pode fazer quando reconhece onde a nossa relação ou comunidade está? Primeiro perceber se o ritmo de mudança está ou não funcionando. Caso não esteja, a gente pode mexer nessas variáveis: aumentar a diferença ou a troca para acelerar a mudança, ou diminuir a diferença ou a troca para reduzir o ritmo das mudanças.


Conhecer e aplicar esse modelo me ajudou a entender muito melhor o que estava acontecendo nas minhas relações, nas comunidades e nas organizações que eu atuo. Consegui perceber que não existe um ritmo certo para as mudanças acontecerem, identifiquei os riscos e as vantagens de cada ritmo e entendi o que eu posso fazer para minimizar esses riscos e criar um movimento que cuida de verdade das pessoas e das relações.


Nosso movimento nasce da nossa capacidade de perceber o que precisamos e conseguimos fazer. É por isso que amar é também perceber.



Essa é uma das 30 práticas que apresentamos na segunda edição do Inventário Amuta, um compilado de artefatos e pesquisas para criar comunidades e gerar conexão. Você pode baixar no nosso site a partir de amanhã, 08/02/23. E se você também acredita em modificar as relações através do design, amanhã iremos abrir as inscrições para a formação em Design de Conexões. Participe da aula aberta, baixe o nosso inventário e vamos juntas aumentar nosso repertório e nossas ferramentas para transformar relações e criar comunidades. 

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