Amor dentro das organizações ainda é amor?

Nesse texto eu não vou falar sobre o quanto o amor é importante, e de como precisamos ser ousadas o suficiente para falar sobre amor explicitamente no processo de regenerar as organizações.


Eu não vou falar sobre o amor como a emoção que nos deixa mais inteligentes, e consequentemente mais empáticas, criativas, produtivas até.


Eu não vou falar sobre a importância de levarmos amor, não aquele romantizado, mas aquele profundamente transformador para as organizações.


Não me leve a mal. Eu continuo sendo uma ativista do amor, mas justamente por isso hoje eu preciso falar explicitamente sobre a possibilidade de alienação do amor quando o levamos para dentro do contexto organizacional.


Estados limite: tudo que tem luz tem sombra


A professora zen budista Roshi Joan Halifax apresenta no seu livro “A Beira do Abismo” o conceito de “estados limite”. Segundo esse conceito, qualidades interpessoais chave para a nossa vida, como altruísmo, empatia, integridade, respeito e engajamento, podem se deteriorar e adquirir características patológicas. Creio eu que o mesmo pode acontecer com o amor.


“Podemos aprender a reconhecer quando estamos no limite, quando corremos o risco de ultrapassar o limite, quando passamos do limite, e como fazer para retornarmos ao melhor de nós mesmos” Roshi Joan Halifax

Para onde vai sua libido?


Nos últimos meses vivi uma situação limite com o amor dentro do meu contexto de trabalho. Eu amo o que eu faço, e pra mim é muito natural passar horas estudando, escrevendo e conversando sobre os temas abordados no Instituto Amuta. Através desse trabalho eu tenho o privilégio de me desenvolver como ser humano, de conhecer pessoas e fazer amigos e de algum modo de ser quem eu sou no mundo.


Até aí tudo bem, parece o sonho de qualquer millennial (cringe), não é mesmo?


O problema é que esse amor pelo meu trabalho fez com que ele começasse a ocupar tantos espaços da minha vida, que o limite começou a desaparecer. De algum modo parecia que toda a minha energia estava investida em trabalho. Pouco a pouco meu sono começou a se deteriorar, meu cabelo cair, e meu corpo começou a dar sinais explícitos para a importância de reorganizar a quantidade de energia que eu estou investindo no meu trabalho.


A psicanalista e criadora do canal Prazerela, Mariana Stock, aponta a libido como energia vital, e ressalta como a narrativa que vivemos no capitalismo vai continuamente nos incitando a investir toda a nossa libido em trabalho, a ponto de nos alienar de qualquer outra coisa que nos dá prazer. Não é atoa que pessoas que se sentem movidas pelo seu propósito estão mais propensas a ter um burnout.


Positividade que leva a exaustão


O filósofo Byung Chul Han ficou famoso ao explicitar os estados patológicos causados pelo excesso de positividade. Empresários de si mesmos e dotados de poder ilimitado não temos ninguém a nos deter e proibir, mesmo porque, a coerção não se faz mais necessária. Ninguém precisa nos obrigar a servir e trabalhar para o sistema, pois já fazemos isso mesmo sem perceber. E sim, muitas vezes fica mais fácil servir ao sistema supostamente por amor.


Nada pode ser excluído do contexto


Pra mim é nítido que esse amor que nos leva a exaustão vem imbuído de muitas outras coisas que em essência não seriam consideradas amor. Mas se estamos falando de amor dentro de um contexto de organizações, estamos antes de tudo transpondo essa emoção para dentro de um sistema que carrega uma dinâmica própria. E seria inocente da minha parte não olhar para a dinâmica tóxica que historicamente compõem esse sistema que extrai de nós tudo que temos até que a gente se torne obsoleto e seja jogado fora.


Não existe nada que pode ser excluído do seu contexto, nem mesmo o amor, essa é a aprendizagem número 1 sobre interdependência. Por isso, pra mim uma reflexão profunda sobre amor dentro de organizações passa por olhar de frente para o contexto utilitarista desse sistema para entendermos de fato o que o amor se torna dentro desse contexto.


“Imagine investigar a personalidade dos pepinos para descobrir por que eles se transformaram em picles azedos, sem analisar os barris de vinagre em que estavam submersos!” Maslach

Não é atoa que a maioria dos textos e artigos que falam sobre amor nas organizações falam sobre os ganhos em engajamento, produtividade e desempenho.


Com o aumento do número de estudos e pesquisas sobre os resultados positivos do amor para os resultados almejados pelas empresas, provavelmente mais empresas irão cuidar melhor desse ambiente, e isso é ótimo. Mas será que também não existe a possibilidade do amor ser usado como uma ferramenta sutil, e justamente por isso extremamente poderosa, de manipulação?


“Tudo é passivo de apropriação” Rafa Arradi

O que a gente não faz por amor?


Ame-o ou deixe-o. Por amor o preço é outro. Faça tudo por amor. Quantas vezes já ouvimos falar de amor para justificar atos violentos ou abusivos, dentro e fora do contexto organizacional? Amor não pode ser usado como desculpa para remunerar mal, para trabalhar demais, para nos tornarmos pacificados e permissivos, para nos moldar ou extrair tudo que temos.


Mesmo porque nada disso é amor, é violência. E por tudo isso, precisamos urgentemente ter a coragem de ir fundo e falar profundamente sobre amor.


Mês que vem vamos iniciar uma nova temporada da comunidade, e o centro das nossas pesquisas, práticas e conversas será o amor nas organizações. Serão quase 3 meses de investigação, e como sempre, queremos sustentar as perguntas, os incômodos, as dúvidas, as inquietações.


Vamos juntas encontrar as brechas para o amor nas organizações? Faça parte da nossa comunidade. Pré inscrições aqui.