Empresas horizontais, relações verticais

Hoje muito se fala sobre a criação de comunidades e organizações horizontais - altos investimentos estão sendo feitos para uma transformação cultural que insira nas organizações modelos de autogestão e elevados graus de autodireção.


Tenho observado que embora novos modelos de gestão e novas práticas sejam aplicadas, ainda há pouca atenção às dinâmicas que ocorrem nas relações. Minha hipótese é de que enquanto as relações não se tornarem horizontais, as empresas irão permanecer verticais.


E o que seria uma relação horizontal?


Uma relação horizontal é baseada na interdependência, e tem como base autonomia e intimidade.


Em relações pautadas na interdependência, respeitamos a nossa autonomia e a do outro. Por isso, não esperamos que o outro nos sustente, nos salve, nos diga o que fazer. E também não esperamos controlar o outro - suas ações, pensamentos e sentimentos.


Mas isso não significa que somos independentes. Nós reconhecemos que para sermos quem somos no mundo dependemos de uma rede de apoio próxima e consistente. Como seres sociais precisamos de amor, carinho, afeto, atenção. E sabemos que quando não nos sentimos amados, dificilmente conseguiremos nos engajar em comportamentos positivos e alcançar nosso potencial.


O que os psicólogos estão descobrindo agora é que o ser humano vai amadurecendo não é rumo a independência, mas a um outro tipo de dependência” Arun Mansukhani

Percebo que há um movimento crescente por mais autonomia, mas ignora-se a importância dos relacionamentos para criar-se as bases necessárias para que uma pessoa possa manifestar um comportamento autônomo. Encontrei na “teoria do apego” ressonância nessa ideia de que a autonomia não nasce no vácuo.


Escarafunchando a teoria do apego


O termo “Teoria do Apego” foi criado pelo psicólogo John Bowlby nos anos 1950 e 1960 a partir de estudos realizados com bebês. A palavra apego tem muitos significados, mas dentro dessa teoria, o apego genuíno seria a criação de um vínculo afetivo saudável que nos torna seguros e emocionalmente estruturados.


De acordo com Bowlby, o bebê precisa de uma figura de apego próxima, acessível e atenta para que se sinta amado, seguro e confiante. Esses sentimentos irão influenciar no comportamento dos bebês e no seu desenvolvimento.


Os bebês que têm uma fonte de apego seguro manifestam em seu comportamento maior capacidade de explorar o ambiente e socializar com outras pessoas. Aqueles que não tem uma fonte de apego seguro tendem a se tornar mais inseguros, ansiosos, emocionalmente distantes e buscam priorizar segurança à exploração.

A teoria do Bowlby foi posteriormente aplicada a estudos com adultos em relacionamentos monogâmicos, e também para observar o comportamento de grupos, sendo que reside no segundo o meu maior interesse.


Será que comunidades só se tornam de fato horizontais quando as pessoas encontram fontes de apego seguro?


Essa é a minha hipótese e fui atrás das pesquisas para entender. Encontrei então alguns pesquisadores que se dedicaram a pesquisar a aplicabilidade da Teoria do Apego a relações em grupos.


Tais pesquisas partem de uma perspectiva evolutiva para explicar que a proximidade com um grupo foi tão fundamental quanto a proximidade com um cuidador individual para a nossa sobrevivência. Logo, pertencer a um grupo é uma necessidade básica e elemento de sobrevivência, o que tornaria aplicável a lógica de que o sistema de apego influencia não só interações individuais, mas também entre grupos.


Acho importante ressaltar que embora para mim faça sentido aplicar a lógica geral proposta pela teoria do apego a relacionamentos de grupos de adultos, não considero que encontrei respaldo científico suficiente para essa hipótese. Para mim, faz sentido portanto usar a teoria apenas como premissa para entender melhor como as dinâmicas que ocorrem nos relacionamentos influenciam em nossos comportamentos.


Como aplicar a teoria do apego para compreender a dinâmica de relações de grupos?


Embora algumas pessoas utilizem a teoria de Bowlby para categorizar o tipo de estilo de apego de indivíduos (seguro, preocupado-ansioso, desapegado-evitativo e assustado-evitativo), encontrei aplicações mais atuais que ao meu ver fazem mais sentido. Nesse caso acredito que o estilo de apego varia não em tipo, mas em grau, e tal categorização me parece mais útil quando aplicada na explicação da dinâmica de relações e não de tipos psicológicos de pessoas.


Nesse caso, uma avaliação sobre o estilo de afeto revela não que sou uma pessoa evitativa ou ansiosa, mas que dentro de uma relação específica manifesto um grau X de evitação e Y de ansiedade, sendo que em outra relação posso manifestar tendências diferentes. Meu maior interesse é compreender as dinâmicas das relações que estão limitando ou potencializando um grupo e não o tipo psicológico dos indivíduos, pois nesse caso cairemos novamente na já conhecida tendência a culpabilizar indivíduos e manter intocadas as estruturas.



As duas variáveis críticas utilizadas para compreender a dinâmica de uma relação são: ansiedade e evitação. Quando aplicada a grupos, as pesquisas*(Rom e Mikulincer - 2003) revelaram que esses diferentes estilos de apego vão influenciar nos comportamentos das pessoas dentro de grupos. Logo, os estilos de apego manifestados na dinâmica do grupo influenciam na criação de comunidades e realização de tarefas coletivamente.


  • Ansiedade: ocorre quando os indivíduos evitam a criação de autonomia. Por não sentir que as pessoas ali estão disponíveis, responsivas e atenciosas, as pessoas do grupo tendem a manifestar maior insegurança, preocupação e se sentem constantemente ameaçadas. Como consequência, um grupo com alta pontuação em ansiedade pode manifestar dificuldade em assumir responsabilidade e autonomia, e uma busca crônica por aprovação que atrapalha o desempenho.


  • Evitação: ocorre quando os indivíduos evitam a criação de intimidade. Por não sentir que podem confiar uns nos outros, as pessoas ficam pouco confortáveis em se vulnerabilizar, pedir ajuda e depender uns dos outros. Como consequência, um grupo com alta pontuação em evitação pode ter dificuldade em criar e apoiar objetivos coletivos, manifestando baixos graus de colaboração tanto no nível instrumental quanto socioemocional.


No Design de Conexões, abordagem desenvolvida pelo Instituto Amuta, criamos o contexto para aumentar a intimidade e autonomia. Partindo da teoria do apego, podemos perceber que muitas vezes o que está bloqueando um grupo a se tornar de fato uma comunidade horizontal é a falta de relacionamentos próximos, acessíveis e atentos.


Para mim, uma das coisas mais interessantes da teoria do apego é a compreensão de que nossos comportamentos são reflexo das nossas emoções, e nossas emoções nascem a partir de nossos relacionamentos. Essa é uma ideia proposta também por outras grandes inspirações que estão na base do trabalho do Instituto Amuta como Humberto Maturana, Nancy Kline e o Heartmath Institute.


Se queremos que as pessoas assumam responsabilidades, colaborem umas com as outras, tenham iniciativa e de maneira geral se engajem em um modelo de maior autodireção, precisamos avaliar: as relações estabelecidas criam fontes de apego seguro para os indivíduos? Ou estamos querendo horizontalizar os processos mantendo verticais as relações?