O QUE O AMOR TEM A VER COM A INTELIGÊNCIA?



Temos um grande apreço pela inteligência, pelas pessoas inteligentes, pelos sistemas e organizações “inteligentes”. As pessoas amorosas e o amor são “fofos”; entretanto, em sua maioria, não são igualmente venerados pela sociedade.


É curioso pensar o quanto o amor foi “socialmente discriminado” ao longo dos anos. Falar de amor - e de emoções em geral - não confere o mesmo grau de respeito que falar de dados e pesquisas científicas.


Falar de amor dentro das organizações e do ambiente de trabalho então? Chega a ser uma gafe.


Não sei em qual momento da história da humanidade a separação entre o amor e a "inteligência" foi instituída. Desconfio que sua origem venha desde os tempos de Descartes, com a separação entre mente e corpo e o consequente privilégio da mente em relação à matéria.


Fato é que, essa separação foi tão bem construída, que acabou divorciando dois conceitos que deveriam ser inseparáveis. Afinal, um potencializa o outro.

Você sabe qual é a única emoção responsável pela expansão do comportamento inteligente?


No artigo The Biology of Business: Love Expands Intelligence, Humberto Maturana e Pille Bunnell afirmam que o único sentimento que amplia a visão e expande a inteligência é o amor.


De acordo com os autores, o amor expande a inteligência e possibilita a criatividade, porque viabiliza a experiência de liberdade. E o amor expande a possibilidade de liberdade, porque devolve às pessoas a autonomia, e consequentemente a responsabilidade.


Por isso, se em alguma esfera de sua vida você almeja alcançar a liberdade com intenção de se livrar da responsabilidade correlata, sinto lhe dizer, mas você não entendeu nada!


E provavelmente as organizações não entenderam nada também. Talvez por isso elas separem o amor do mundo dos negócios, por associarem o amor a um impulso descomedido, ou à alguma espécie de isenção de responsabilidade. Como se, ao deixar “o amor entrar”, as coisas pudessem sair de controle.


Mas, afinal, o que é o Amor?

Maturana define o amor da seguinte forma: o amor é o domínio daqueles comportamentos relacionais através dos quais o outro (a pessoa, ser ou coisa) surge como um legítimo outro na coexistência consigo mesmo.


Parece fácil imaginar um ambiente corporativo ou organizacional no qual exista amor, já que para existir amor, basta existir reconhecimento legítimo da existência do outro. Entretanto, muitas vezes é mais fácil imaginar ou identificar ambientes no qual esse reconhecimento - e esse amor - é podado, invalidado, diminuído.


E o que seria “negar ao outro uma existência legítima”?


A legitimidade passa por diferentes aspectos: veracidade, razão, lógica.

Quando legitimamos algo ou alguém estamos conferindo àquele ser a possibilidade de ser quem/o que ele é. A possibilidade de existir em sua forma mais verdadeira, genuína, pura, fidedigna, justa, autêntica.


Quando legitimamos algo ou alguém, reconhecemos uma espécie de idoneidade à sua existência. No âmbito político, por exemplo, quando legitimamos uma autoridade, concedemos a ela o direito de exercer um poder, por isso a legitimidade é uma condição tão importante para governantes.


Quando pensamos no amor, e reconhecemos o outro como legítimo, concedemos a ele o direito de exercer quem ele é, concedemos o “poder” para o outro poder ser.


Mas é muito comum que essa legitimidade falte nos ambientes corporativos. Muito do que somos fica de fora do que é aceitável, justificável e desejável nas organizações. E muitas vezes, ao invés de uma concessão, o outro recebe uma imposição. Uma imposição de como se vestir, como se comunicar e até de como pensar.


Você nega ao outro uma existência legítima quando restringe ou diminui a sua existência. Seja através de suas expectativas, buscando adequar o outro naquilo que espera dele, seja através do seu comportamento, limitando atitudes você considera inadequadas ou erradas. Ou seja, essa restrição - que elimina o amor - acontece de acordo com a forma como nos relacionamos uns com os outros e com os contextos à nossa volta.


E o que a gente perde com a falta de amor? Inteligência.


Sim, a resposta não é óbvia. Para entender isso precisamos nos questionar sobre: o que é “ser inteligente”? A inteligência não se relaciona somente com ter mais informações, ou ter uma memória mais afiada. A inteligência tem a ver com o grau de plasticidade para analisar um contexto real e fazer as conexões necessárias para encontrar uma solução, ter uma nova ideia ou um pensamento, conectando pontos que a princípio pareciam "não conectáveis".



A inteligência se relaciona com o quão maleável são as pessoas - e as organizações - para mudar comportamentos ou flexibilizar as relações diante dos diferentes cenários. E um dos fatores que determina essa maleabilidade são as emoções.


Se quisermos fazer uma análise científica, descobriremos que o funcionamento do nosso cérebro está diretamente ligado a emoções. As emoções podem potencializar as memórias que guardamos, determinar a forma como reagimos nas situações, definir nossa capacidade de criar soluções e inclusive nortear nossas relações com o outro.


E dentre as inúmeras emoções que sentimos