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Quem tem tempo para o afeto?


Quem tem tempo para o afeto?


Nosso tempo parece que foi sequestrado e se relacionar se tornou mais uma demanda. Entregamos nosso tempo de bandeja para o trabalho, para as big techs, para um modelo ultra avançado de capitalismo tecno feudal (Yanis Varoufakis) que fazemos parte mesmo sem perceber, para as metas descabidas de produtividade das organizações… E sobra mesmo muito pouco tempo para sentir, se afetar, se conectar.

Falta energia social, vontade de sair de casa para encontrar as pessoas que amamos, capacidade de desenvolver uma boa conversa com as nossas relações mais casuais no Whatsapp.  Quanto mais criar espaços intencionais para nossas relações. 

Reuni aqui alguns aprendizados que considero importantes para que a gente consiga encontrar tempo para o afeto.  

  1. Cuidar das relações é um tempo que gera tempo

Pode parecer perda de tempo abrir espaço para um check in de qualidade no início de uma reunião ou para processar o que ficou de desconforto depois de uma entrega. Parece perda de tempo ir no happy hour da firma depois de um dia cansativo, reservar tempo para conversar, rir junto, criar intimidade. Mas são esses pequenos momentos que fazem com que a relação se torne cada vez mais fluida, que os desconfortos sejam processados com mais facilidade, que a gente consiga viver e criar coisas junto com mais agilidade. 


  1. Intencionalidade e clareza do que quero causar 

Dar atenção, oferecer um reconhecimento ou apreciação, sustentar espaço para tensões sem se apressar em resolver, escutar as necessidades das pessoas, processar e compartilhar os nossos desconfortos com cuidado e consideração, pensar com carinho nos convites, sustentar um ritmo de encontros periódicos, pensar em como vamos incluir as pessoas, desenhar cada detalhes do que elas vão viver. Tudo isso requer intencionalidade, por isso acho importante ter clareza da mudança que quero causar e ter meios de acompanhar o que está se movimentando nas relações e comunidades que atuo.  


  1. Aprender a fazer escolhas 

Em um mundo de amores e trabalhos cada vez mais poli amorosos, é tentador se vincular a várias comunidades e nutrir uma rede extensa de afetos. E tá tudo bem. Mas pra mim tem sido importante eleger algumas comunidades e relações que eu quero colocar mais energia porque eu sinto que elas me devolvem mais energia também. Como líderes, gestoras de comunidade ou designers de conexões também fazemos essa escolha: quem são as pessoas que mais energizam essa comunidade? Quem são as pessoas que podem inclusive assumir o papel de energizar outras relações já que eu não dou conta de todas elas? Normalmente essas são as pessoas que eu foco mais minha atenção. 


  1. Não é só sobre tempo, é sobre energia

Se nosso tempo está cada vez mais escasso e temos tantas interações que drenam nossa energia o tempo todo, vamos escolher ficar e investir naquelas relações que nos energizam. Quais as comunidades e eventos que participo que nutrem minha energia? Quem são as pessoas e situações que me energizam e que me drenam? Como líderes e designers, o que podemos fazer para que as pessoas se energizem nos espaços que desenhamos? 


  1. Cuidar da experiência não é firula

Quando o tempo é curto (e sempre é) a primeira coisa que escuto é que devemos cortar o cuidado no desenho das experiências, ou o que muita gente chama de firula. “Seria lindo se a gente tivesse tempo, mas não vamos escrever um bilhetinho a mão para cada convidada, ou cuidar do espaço estético ou comprar flores e uma vela bonita.” Investimos muito tempo em evitar qualquer erro, sendo que as pessoas vão perdoar falhas como acabar papel higiênico no banheiro, desde que elas tenham esses momentos de cuidado significativo e picos memoráveis. 


Acho que uma das coisas mais sinistras da história da civilização ocidental é o famoso dito atribuído a Benjamim Franklin, ‘tempo é dinheiro’. Isso é uma monstruosidade. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida, é esse minuto que está passando. Daqui a 10 minutos eu estou mais velha, daqui a 20 minutos eu estou mais próxima da morte. Portanto, eu tenho direito a esse tempo. Esse tempo pertence a meus afetos. É para amar as pessoas que escolhi, para ser amada por elas. Para conviver com meus amigos, para ler Machado de Assis. Isso é o tempo. ‘eu quero aproveitar o meu tempo de forma que eu me humanize’.“  Antônio Cândido 

E você? Como faz para proteger o tempo para os seus afetos?


(uma foto cheia de amor da última edição da faísca. créditos: dicarvalh0)

Até breve com mais atravessamentos,

beijos, Marcelle Xavier




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