Relações de duplo vínculo

Uma das dinâmicas de relação mais perversas (e também mais comuns) que eu já vivenciei nas minhas relações é o fenômeno que o antropólogo Gregory Bateson nomeou como “duplo vínculo”. O duplo vínculo ocorre a partir do recebimento de duas informações conflituosas - é a ação de afirmar e negar algo simultaneamente.


O termo duplo vínculo foi cunhado por Gregory Bateson, Don Jackson, Joy Haley e John Weakland a partir de uma investigação de alguns transtornos psicológicos que não eram engatilhados por uma experiência traumática, e sim por um padrão que quando vivenciado diversas vezes pode desencadear tais transtornos.


O que os pesquisadores identificaram é que essa incongruência, quando se torna um padrão na relação, deixa os indivíduos envolvidos em uma situação de confusão e extrema vulnerabilidade. É como se estivéssemos constantemente pisando em ovos, nesse jogo de tentar adivinhar o que fazer para ser aceito e amado pelo outro.


O duplo vínculo pode ocorrer em qualquer relação: com amigos, família, parceiros amorosos, dentro de organizações e é caracterizada por:


  • Uma relação intensa e de elevado valor de sobrevivência

  • Mensagens contraditórias (muitas vezes a fala não se sustenta na ação)

  • Impossibilidade de responder e dialogar de maneira apropriada, o que impede o aprendizado, a evolução e sair daquele padrão relacional


Alguns exemplos clássicos de situações que produzem duplo vínculo são:

  • Seja espontâneo! (se eu cumpro sua ordem já não estou sendo espontânea)

  • Eu te amo.

  • Você é a pior pessoa do mundo.

  • Aqui na empresa a gente valoriza a empatia.

  • Você não vai trabalhar de novo por causa do seu filho?

  • Não vou poder fazer isso por você

  • Tudo bem. (responde com uma cara emburrada)


Uma relação de duplo vínculo é como uma loteria de afeto.


Imagine que você está em uma relação com uma pessoa que você realmente se importa. Essa pessoa age de maneira estranha, mas você não tem clareza do que está acontecendo, pois ela não é explicita. Com isso você se sente mal, culpada, preocupada. Como você se importa com ela, você vai tentar “acertar”, mas você não sabe exatamente qual resposta irá produzir esse acerto, então é como uma loteria.


E a loteria, como outros jogos de azar, é viciante. Segundo o livro “The Molecule of More” dos autores Daniel Lieberman e Michael Long, a Dopamina é um dos neurotransmissores do prazer, e ela é mais fortemente liberada quando não sabemos quando teremos a recompensa.


Por isso, muitos de nós ficamos viciados em jogos de azar, se você tivesse certeza que iria ganhar não liberaria tanta dopamina assim. E por isso também podemos nos tornar viciados em relações de duplo vínculo. Relações que reproduzem o padrão de duplo vínculo são como uma montanha russa. Hora estamos no topo, hora estamos no fundo do poço. Ficamos então viciados em buscar a aceitação e o amor do outro e nunca temos certeza de quando iremos de fato “acertar”,


O padrão é mais ou menos esse: Beijo! Tapa! Beijo! Tapa! Beijo! Tapa! Para cada tapa, ganhamos um beijo, e para cada beijo ganhamos um tapa. Em qual deles escolhemos acreditar? No beijo, é claro. É o que nos mantém ali (Penfold,2006, p. viii – ix)

A teoria do duplo vínculo foi utilizada por alguns teóricos para explicar os casos de violência conjugal e como essa dinâmica cria uma trama tão difícil para que mulheres saiam e peçam ajuda. Quando estamos envolvidos nesse tipo de relação, não somos capazes de refletir profundamente sobre o relacionamento e interpretar a violência, e a ambiguidade de sentimentos tende a favorecer a escolha de permanecer. Quem nunca deu “só mais uma” chance?



Organizações esquizofrênicas

O duplo vínculo também já foi utilizado para explicar dinâmicas organizacionais nas quais a incoerência recorrente entre teoria e prática e a ausência de segurança psicológica para diálogos transparentes cria um padrão que quando institucionalizado impede que as pessoas aprendam e que a organização possa evoluir.


Exemplos:

Como devo agir para ser aceito nesse sistema?

  • A colaboração é valorizada, mas as estruturas de contratação, promoção e recompensa são baseadas na competição.

  • Devo tomar iniciativa e ser protagonista, mas se eu quebrar as regras e fazer do meu jeito serei questionado pelo meu líder.

  • “Fale sobre os erros” está em todas as paredes, mas as pessoas que erram não são valorizadas.


De um lado, uma bela lista de valores, um manifesto atraente, uma lista de competências importantes a serem desenvolvidas. Do outro, estruturas que contradizem e criam barreiras para realização dos próprios valores e competências almejadas. As agendas conflitantes das empresas e o pouco espaço para questionar e alterar as normas, estratégias e metas cria não só um padrão cultural tóxico como impede a própria evolução da organização ao dificultar que as pessoas percebam e modifiquem a cultura.


Eles estão jogando um jogo. Eles estão brincando de não jogar um jogo. Se eu mostrar a eles que vejo que são, quebrarei as regras e eles me punirão. Devo jogar o jogo deles, de não ver eu vejo o jogo (Laing, 1971)

É importante ressaltar que existe uma diferença entre as contradições, que são inerentes a qualquer relação ou sistema, e o duplo vínculo, que é caracterizado pela ausência de espaço de reflexão e diálogo sobre tais ambiguidades. E uma das grandes diferenças é que em relações de duplo vínculo perceber e apontar as contradições é um risco, e ao fazê-lo, posso perder a relação.


Rumo a congruência

Relações de duplo vínculo são pautadas pela falta de congruência das pessoas envolvidas na relação. Para o psicólogo Carl Rogers, a congruência é a manifestação mais autêntica possível de quem somos, do que pensamos e sentimos a cada momento. Note que ser congruente não tem nada a ver ser estável, constante e não mudar de ideia. Pelo contrário, ser congruente é se observar e manifestar sua versão mais verdadeira a cada momento.


O que podemos fazer para criar ambientes seguros o suficiente para sermos quem somos?