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TEORIA U || Vozes internas de resistĂȘncia: Voz do cinismo

  • Foto do escritor: Marina GalvĂŁo
    Marina GalvĂŁo
  • 25 de out. de 2021
  • 5 min de leitura


Na perspectiva da teoria U, a mente aberta, o coração aberto e a vontade aberta sĂŁo os 3 instrumentos que nos ajudam a estar no campo social do “presencing” (que em inglĂȘs combina sensing com presence = sentir + presença).

Mas esses instrumentos nem sempre sĂŁo de simples compreensĂŁo. Um caminho interessante para acessĂĄ-los Ă© conhecer quais sĂŁo os “trĂȘs inimigos (como diriam os norte americanos) ou trĂȘs vozes internas de resistĂȘncia (como diriam os europeus)” que nos atrapalham nesse processo de abertura.

A mente aberta, o coração aberto e a vontade aberta, são, bloqueados, respectivamente pela Voz do Julgamento, pela Voz do Cinismo e pela Voz do Medo.

A Voz do Cinismo bloqueia o coração aberto e, de acordo com a Teoria U, o seu “antídoto” seria a compaixão.

Mas afinal, o que Ă© o cinismo?

Desde a primeira vez que participei do LaboratĂłrio da Teoria U, em 2015, essa "voz" foi uma das que mais me deixou intrigada, pois nĂŁo estava tĂŁo claro pra mim o que Ă© o cinismo, e como ele se apresenta no nosso dia a dia.

Ao longo dos anos, levei a pergunta para amigos e para grupos do Hub do ULab, nos quais trabalhei como facilitadora: “o que vocĂȘ entende por cinismo?”

E ouvi respostas variadas:

  • “Ser cĂ­nico Ă© ser sarcĂĄstico com as pessoas“

  • “Ser cĂ­nico Ă© ser falso, agir de forma dissimulada”

  • “Ser cĂ­nico Ă© dizer o contrĂĄrio do que a gente pensa com ironia”

  • “Ser cĂ­nico Ă© ser hipĂłcrita”

Me ocorreu que, assim como eu, a maioria das pessoas nĂŁo entendia exatamente o que era cinismo. E que todas as respostas continham um pouco do seu significado, mas nĂŁo havia consenso, e nenhuma delas satisfazia plenamente, especialmente quando eu tentava levar a conversa para um exemplo prĂĄtico: - “mas quando Ă© que vocĂȘ se reconhece sendo cĂ­nico?”


As respostas também variavam muito:

- “quando eu brinco com a verdade de maneira ruim”

- “ah, eu nunca sou cínico”

- “quando eu tĂŽ sem paciĂȘncia com a pessoa com quem estou conversando eu uso do cinismo para fazer ela se sentir mal”

Enquanto corrente filosĂłfica, o cinismo pregava desprezo pelos bens materiais e pelo prazer. Para os cĂ­nicos, as pessoas tem que “ser exemplos vivos daquilo que afirmam”. Mas isso nĂŁo parece de todo ruim, nĂ©? Afinal, ser exemplo daquilo que se afirma Ă© algo coerente.

Então, o que faria com que o cinismo impedisse nossa abertura de coração?


No dicionĂĄrio o significado de cinismo Ă©: “comportamento ou ação de cĂ­nico, de quem demonstra desprezo pelas normas sociais ou pela moral estabelecida; atrevimento, descaramento, despudor.”

Essa explicação também não me ajudou muito, porque não trouxe clareza sobre a presença do cinismo em situaçÔes reais.

Fui buscar a diferença entre o comportamento do cínico e do hipócrita:

De acordo com MoysĂ©s Pinto Neto “O hipĂłcrita diz uma coisa e faz outra. O cĂ­nico Ă© o inverso do hipĂłcrita. O hipĂłcrita reconhece a validade da norma moral, afirma a validade da regra moral, mas ele nĂŁo cumpre, portanto falha na performance. JĂĄ o cĂ­nico nĂŁo reconhece a validade da norma moral. Ele faz exatamente aquilo que ele diz, sĂł que o que ele diz pode ser um absurdo.”

Compreendi, assim, que o hipócrita aceita as convençÔes sociais e fica envergonhado quando é pego em uma mentira. Jå o cínico, não sente vergonha e, em seu discurso, busca desconstruir todo tipo de convenção social que, para ele, são baseadas em mentiras.

Os cĂ­nicos, desapegados das convençÔes sociais e percebendo-as como fraudadas, se sentem superiores. E Ă© essa superioridade ou indiferença perante “o outro” que faz com que a pessoa imbuĂ­da de cinismo atue com frieza, insensibilidade, apatia, desatenção e distĂąncia.

Compreender essa diferenciação começou a iluminar melhor esse conteĂșdo, mas, acreditando que as citadas “vozes de resistĂȘncia” habitam, com certa frequĂȘncia, as nossas atitudes, nĂŁo consegui reconhecer com tanta facilidade como o cinismo poderia estar presente na vida das pessoas (inclusive na minha).

AtĂ© que um dia, conversando com uma participante de um processo de facilitação que estava conduzindo em uma empresa, finalmente consegui acessar a essĂȘncia desse conceito, e compreender porque o cinismo era uma voz de resistĂȘncia para acessar o coração aberto (como ela me autorizou, compartilho essa histĂłria abaixo).

Afinal, como praticamos o cinismo no dia a dia?

Aqui cabe um breve contexto: essa mulher trabalhava hå 10 anos em uma mesma empresa, e era líder do RH, ou seja, ficava a cargo dela ouvir questÔes envolvendo as pessoas que compunham a empresa e tomar algumas decisÔes. Todos os såbados havia um plantão de atendimento a clientes e os funcionårios faziam um rodízio para cobrir esse horårio de trabalho.

Ao longo dos anos, essa mulher lidou com todo tipo de argumento das pessoas para não trabalharem aos sábados, e passou a acreditar que todos os pedidos para alteração deste horário eram “desculpas” para escapar do plantão.

Para um dos funcionĂĄrios essa era uma situação especialmente complicada, pois nos Ășltimos trĂȘs meses estava com um familiar doente em casa, e os sĂĄbados eram dias difĂ­ceis para ele, que seguia comparecendo ao plantĂŁo.

Um dia, almoçando juntos, esse funcionário mencionou com ela o seu contexto familiar, compartilhando a sua situação pessoal e a doença do ente querido. Ela imediatamente pensou que ele estava usando da doença do familiar para sensibilizá-la, porque queria ser dispensado de cumprir o plantão, se fechou e não quis aprofundar no assunto para não “dar abertura” para nenhum outro pedido nesse sentido.


Ao compartilhar essa histĂłria comigo, ela me disse que se sentiu mal, mas que teve que agir de acordo com o que ela tinha aprendido na sua experiĂȘncia ao longo dos anos e descredibilizar a histĂłria do funcionĂĄrio. A meu ver, ela trouxe uma racionalidade que talvez estivesse desconectada do que realmente sentia, mas que estava alinhada com o que acreditava. E foi aĂ­ que eu entendi a presença do cinismo.

Por mais que as normas sociais e morais apontem para o acolhimento da dor, e das pessoas que tenham familiares doentes, por mais que que aquele funcionĂĄrio estivesse buscando apenas um momento de conexĂŁo, ou um apoio emocional, ela reagiu com insensibilidade e apatia por acreditar que existia um "motivo secreto" por trĂĄs da atitude dele e se afastou.

Foi nessa troca sincera com ela que consegui perceber quando Ă© que somos cĂ­nicos em nosso dia a dia...

Não é um puro desprezo pelas convençÔes sociais:

. Ă© um posicionamento de acordo com o que vocĂȘ pensa sobre o mundo

. mesmo que esse seja um posicionamento contrĂĄrio Ă quilo que vocĂȘ realmente sente

. ou que seja um posicionamento que descredibiliza o que as outras pessoas sentem

E quando Ă© que fazemos isso?

Em diversos momentos podemos atuar de forma cĂ­nica. Quando pensamos que os defensores do meio ambiente tĂȘm intençÔes secretas por trĂĄs de sua causa, ou que todas as ONGÂŽs extraviam dinheiro para interesses pessoais, ou que aquela pessoa nĂŁo gosta de vocĂȘ e sĂł estĂĄ se aproximando por interesses prĂłprios; ou que os moradores de rua sĂŁo “desocupados”.

O cinismo reforça a si mesmo, alimentando inseguranças, falsificando afetos, que fortalecem a descrença e promovem o distanciamento.

Na sua raiz estão a desconfiança, a insegurança e a baixa autoestima. E não se engane!: em alguma medida somos todos desconfiados, inseguros e com baixa autoestima.


Agimos portanto, de forma cĂ­nica, quando desconsideramos o outro por acreditar que nosso pensamento carrega maior lucidez ou verdade, e nos achamos superiores por isso .

Por isso o cinismo Ă© uma voz interna de resistĂȘncia ao Coração Aberto, porque nos impede de ser empĂĄticos e de acessar o lugar do outro. Para fazer isso, precisamos incorporar mais compaixĂŁo nas nossas atitudes e usĂĄ-la como uma lente para ver o mundo.

Enfim, foi essa abordagem “sociopsicolĂłgica” do cinismo me ajudou a compreender um pouco mais desse mecanismo que dificulta as relaçÔes interpessoais e, que na perspectiva da Teoria U, nos afasta de experimentar o presencing. Espero que tambĂ©m te ajude a reconhecer quais sĂŁo as suas atitudes emocionais de distanciamento - em contextos pessoais e profissionais - que te atrapalham a acessar a abertura do coração. . .

. Se quiser ler outros textos sobre a Teoria U baixe o ebook da Marina GalvĂŁo: Teoria U e suas Interfaces: https://www.institutoamuta.com.br/blog

 
 
 
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