War on sensemaking (guerra da construção de sentido)

Tradução livre feita por Marcelle Xavier e Marina Galvão, com base no texto The War on Sensemaking escrito por Andrew Sweeny.


Uma ecologia de informação doentia

Há muito tempo que nós temos uma base para a desinformação. Temos uma “dinâmica de rivalidade” há muito tempo. A “dinâmica de rivalidade” é a base pela qual podemos progredir na guerra, matando alguém ou mentindo para ele, ou arruinando os bens comuns. Mas a tecnologia exponencial leva, com os mesmos incentivos, à desinformação exponencial, extração exponencial, poluição exponencial, guerra em escala exponencial, em um campo de jogo finito que se autodestrói. - Daniel Schmachtenberger, War on Sensemaking

Há uma guerra acontecendo em nosso ecossistema atual de informações. É uma guerra de propaganda, manipulação emocional, mentiras flagrantes ou inconscientes. Não é nada novo, mas está atingindo uma nova intensidade à medida que nossa tecnologia evolui. O resultado é que se tornou cada vez mais difícil entender o mundo, e isso tem consequências potencialmente fatais. Se não podemos entender o mundo, também não podemos tomar boas decisões ou enfrentar os muitos desafios que enfrentamos como espécie.


Hoje, o Facebook e o Instagram contratam psicólogos para nos fisgar; nossos sentimentos e opiniões são usados para gerar dinheiro para poucos, enquanto criam um estado de distração e vício crônico para muitos. Maus atores com motivações múltiplas e sobrepostas poluem a ecologia da informação para ganhos políticos e financeiros. No mercado da atenção, estamos jogando “jogos de soma zero”, que tem poucos vencedores e muitos perdedores.


Em War on Sensemaking, o futurista e visionário Daniel Schmachtenberger descreve em detalhes forenses a dinâmica em jogo nesta nova ecologia da informação - aquela na qual todos nós estamos incluídos. Ele explora como empresas, governo e mídia tiram proveito de nosso estado distraído e vulnerável e como nós, como indivíduos, podemos desenvolver o discernimento e as habilidades de construção de sentido necessárias para navegar nesta nova realidade. Schmachtenberger tem uma capacidade admirável de diagnosticar esse problema e, ao mesmo tempo, oferecer maneiras epistemológicas e práticas de ajudar a reparar o labirinto escuro de uma ecologia de informação quebrada.


Schmachtenberger descreve um número assustador de” jogos de soma zero” operando no mundo que, ao serem combinados, correm o risco de mergulhar a humanidade em um penhasco. Ele descreve como a motivação da teoria dos jogos - ou resultados de vitória e derrota - estão se tornando cada vez mais insustentáveis. Por outro lado, a civilização tem a capacidade de se transformar, pois toda crise é simultaneamente uma oportunidade.


Embora a guerra e a extração de recursos possam ter sido parte de uma construção civilizatória no passado, hoje elas podem significar a aniquilação total das espécies. Portanto, o fim da lógica da “teoria dos jogos” não é apenas um ideal utópico, mas uma necessidade existencial.


Schmachtenberger dedicou sua vida à questão: "Como fazemos sentido e não a guerra?" Sua tese é que, a menos que aprendamos como fazer uma boa “construção de sentido” (sensemaking) e a agir de acordo, estamos em grave perigo existencial. A próxima guerra, como Albert Einstein nos disse, será "travada com paus e pedras".


Ouvir Schmachtenberger é um prazer e um terror. Um prazer por causa de sua clareza notável e da amplitude de seu conhecimento - um terror por causa do futuro sombrio que ele traça para a humanidade se nossa “construção de sentido” falhar. Nunca o bom senso foi tão existencialmente importante, e nunca foi tão importante descobrir como resolver problemas aparentemente intratáveis. Esta tem sido a missão sincera de Schmachtenberger durante grande parte de sua vida.




Indo além da besteira


Comece a criar relacionamentos onde um dos maiores valores é a veracidade. Relações com outras pessoas que são capazes, querem e estão comprometidas com isso, nas quais as pessoas não apenas não mentem umas para as outras, mas se esforçam para não reter informações. Isso é uma intimidade tremenda e uma vulnerabilidade tremenda. Veja se você consegue criar segurança psicológica suficiente com algumas pessoas para ser capaz de começar a explorar "O que significa realmente compartilhar informações honestamente, para que possamos “fazer sentido” juntos?" Daniel Schmachtenberger

A verdade clara e imparcial em nossa ecologia de informações é seriamente limitada pela quantidade de besteira que consumimos todos os dias, em parte como resultado da intensidade avassaladora do marketing e das demandas de conformidade de nosso grupo. Além disso, as intenções das nossas fontes de informação muitas vezes são baseadas em clickbait (“indução ao clique”) ou ideologia, e não na verdade.


Besteira não é o mesmo que mentir.


Outro convidado do Rebel Wisdom, John Vervaeke, baseou-se na obra do filósofo de Princeton Harry Frankfurt para ilustrar isso. Frankfurt argumenta que besteira difere de mentir, porque um mentiroso sabe a verdade, mas escolhe enganar intencionalmente. Um bullshitter não se preocupa com a verdade e é definido por 'uma indiferença em relação a como as coisas realmente são' - Frankfurt argumenta que isso os torna mais perigosos, porque embora a besteira ocasionalmente seja verdade, ela turva tanto a ecologia da informação, que mina a verdade em si.


Schmachtenberger, como Frankfurt, descreve as maneiras abertas e sutis como a besteira ou a propaganda funcionam. Ele também nos conta como usamos a “teoria dos jogos” para a sobrevivência básica: como mentimos para seguir em frente, para nos proteger, por hábito inconsciente, puro entretenimento, vingança ou malevolência real.


Ser verdadeiro é um esforço individual e comunitário - significa treinamento; não apenas habilidades cognitivas, mas habilidades relacionais empáticas; e nossa experiência incorporada no mundo. Também significa reconhecer que nem sempre temos a resposta. Admitir nossa ignorância vulnerável diante de esmagadoras mensagens confusas pode ser um bom primeiro passo.


Schmachtenberger também afirma que, para nos tornarmos bons “criadores de sentidos”, precisamos de "fatores de estresse" - demandas que empurrem nossa mente, corpo e coração além do conforto e além da sabedoria que herdamos. Não é suficiente consumir passivamente a informação: primeiro precisamos nos engajar ativamente com a ecologia da informação em que vivemos e começar a ter consciência de como respondemos a ela, de onde a informação vem e por que está sendo usada.


Isso significa aprender "como" aprender tanto quanto "o que" aprender - apenas a informação não é suficiente. Temos muitas informações, mas isso não significa sabedoria. A sabedoria que podemos precisar não é aprendida apenas em workshops de fim de semana, mas em uma vida inteira de estudo e prática.

Parte da resposta está na formação de equipes, comunidades e plataformas de mídia que estão engajadas na responsabilidade, integridade e crescimento pessoal. A comunicação verdadeira não é criada “do nada”, ou em uma bolha, mas no contexto de aprendizagem real e de boa fé. E os contextos de aprendizagem são o oposto das bolhas de informação: eles nos exigem estressar nosso sistema, desfiar nossas suposições e aprender a ir além do óbvio e do mecânico - para ir além da besteira.


Jogo B, Soberania e Regra Omega

A guerra contra a “construção de sentido” é implacável, mas nem toda esperança está perdida. Os seres humanos sempre podem construir seus músculos criadores de sentido e começar a criar um modelo de civilização alternativo, o que Jordan Hall, Jim Rutt, Bonnita Roy e outros que trabalham com Schmachtenberger chamaram de "civilização do Jogo B".


Uma civilização alternativa do Jogo B, não é criada por idealismo, mas por meio de trabalho duro e dedicação. O Jogo B para Schmachtenberger não é sobre o idealismo hippie, mas sim, sobre o dedicado trabalho epistemológico e prático, necessário para criar uma civilização florescente e evitar o desastre. Temos que desenvolver o que Schmachtenberger (junto com Jordan Hall e outros) chamou de "soberania".


O primeiro estágio da soberania é lidar com nosso próprio autoengano e neurose. Soberania significa que temos que "nos tornar responsáveis por nossas próprias merdas" e nos tornar "uma luz para nós mesmos". Isso nos ajudará a desenvolver relacionamentos e comunidades inteligentes. Uma realidade social real deve ser cultivada para evitar os perigos de muita abstração, individualismo e idealismo.

Assim como a integridade e coerência pessoal:, precisamos aprender a refinar nossa capacidade de ouvir. Para resolver isso, Jordan Hall e Daniel Schmachtenberger cunharam o termo Regra Omega.


A Regra Omega é simples, mas muitas vezes difícil de colocar em prática. A ideia é que cada mensagem contém algum sinal e, também, algum ruído, e podemos nos treinar para distinguir a verdade do absurdo - separar o joio do trigo. Se desaprovarmos 95% de um discurso político desagradável, por exemplo, poderíamos nos treinar para ouvir os 5% que são verdade.


Regra Omega significa aprender a reconhecer o sinal dentro do ruído. Isso requer certa sintonia e generosidade com o outro, principalmente com quem pensa diferente de nós. E a Regra Omega só pode ser aplicada àqueles que desejam se envolver em um jogo diferente e trabalhar uns com os outros de boa fé.

Além disso, precisamos desesperadamente prestar atenção às pessoas que estão fora de nossa bolha de informações ou grupo ideológico. Uma boa prática Schmachtenberger sugere é que nos exponhamos a múltiplas fontes de mídia à direita e à esquerda. Por exemplo, um liberal pode assistir a Fox News [ler a revista Veja no Brasil] ocasionalmente e um conservador pode ler o The Guardian [ou ler o El País]. Uma acólita de Jordan Peterson pode tentar ler Marx e estudar um pouco da interseccionalidade feminista. Deus me livre!


O objetivo é nos aventurarmos em lugares que nos deixam desconfortáveis e tentar ver qual parte da verdade esses "inimigos" contêm. Às vezes, o Santo Graal da verdade é enterrado sob uma montanha de mentiras.


Armas e ferramentas


A guerra em curso na esfera da informação é uma guerra em que cada ferramenta potencial é transformada em uma arma. Se por guerra entendemos um violento esforço combinado para destruir "o outro lado" a fim de ganhar ou manter o território, temos que reconhecer que uma guerra está ocorrendo em todas as nossas instituições tradicionais, incluindo a mídia. Mas na “guerra narrativa” de hoje, não está claro quem é o inimigo. Além disso, mesmo que a guerra narrativa seja tão antiga quanto a civilização humana, o campo de batalha mudou devido à tecnologia exponencial e à comunicação global.


No passado, o problema pode ter sido "muito pouca informação" e transparência, hoje é "muita informação" - o excesso de ruído e a desinformação que ingerimos diariamente. E embora tenhamos um crescimento exponencial em tecnologia e comunicação, também temos possibilidades exponenciais de autoengano e besteira.


Certamente existem maus atores e conspirações para nos prejudicar, mas também existe a ‘sombra dentro’. A sombra é o papel não reconhecido que desempenhamos na destruição dos bens comuns e no ciclo vicioso sem fim da guerra narrativa. Precisamos prestar atenção às mentiras sutis que contamos a nós mesmos, tanto quanto, às "grandes" mentiras que a sociedade nos conta o tempo todo. O problema é: não podemos deixar de nos envolver na lógica destrutiva da teoria dos jogos, em maior ou menor grau.


Não podemos evitar totalmente a nossa participação da guerra de informação (fazemos parte dela, querendo ou não), mas, novamente: podemos aprender a ser mais verdadeiros. Como um insight útil, Schmachtenberger faz uma distinção entre a “verdade” em um sentido factual e "ser verdadeiro". A verdade factual, as estatísticas, podem ser transformadas em armas.


Alguém poderia facilmente argumentar - no estilo de Steven Pinker - que o mundo está em um estado de progresso perpétuo; inversamente, alguém poderia bater o tambor apocalíptico em um comício da Rebelião da Extinção e gritar numa esquina que o fim está perto. Ambos os lados têm fatos e verdades, mas se estiverem usando-os como armas na guerra narrativa, em vez de ferramentas produtivas para revelar a verdade, os efeitos podem ser contraproducentes e / ou perigosos.


Sistemas anti-rivalidade


Schmachtenberger argumenta que, mais do que nunca, precisamos cooperar em vez de competir, para desenvolver a sabedoria real e comunidades eficientes na “construção de sentido”, em vez de jogar o jogo rival atual, que ele percebe que está nos levando ao auto extermínio. . Precisamos do que ele chama de "sistemas anti-rivalidade".


Anti-rivalidade é um termo inventado pelo economista Steven Weber que foi popularizado recentemente em certas subculturas de “construção de sentido. Ser "anti-rival" é, em essência, recompensar a boa-fé e a excelência, e não a escassez e a competição acirrada. Consumir um produto ou uma ideia "anti-rival" é aumentar seu valor para você e para os outros.


Para ilustrar: um produto rival como a Coca-Cola produz pouco valor sustentável, mas muito vício, sede e escassez - da mesma forma que o Facebook e o Instagram fornecem informações importantes, mas viciantes, como a má nutrição. Recebemos uma dose de dopamina quando "gostamos" e ficamos deprimidos quando não recebemos a atenção que pensamos que merecemos, e isso cria rivalidade social que nos mantém em um nível de narcisismo infantil. Esgotamos nossa atenção dessa maneira, da mesma forma que exaurimos recursos por meio da extração excessiva.


Uma produção anti-rivalidade quando compartilhada livremente tem um resultado muito diferente. Quer seja uma boa história, um código de computador brilhante ou uma conversa inteligente, frequentemente irá aumentar o valor da verdade, o conhecimento e a criatividade, em vez de esgotar os recursos existentes.


Um sistema imunológico de informação


Uma guerra contra a ”construção de sentido” significa que nossa própria consciência é constantemente atacada, e Schmachtenberger argumenta que devemos aprimorar nossas defesas, ou mesmo transformar esse ataque, no estilo judô, em força e resiliência. Para nos tornarmos saudáveis e sãos, temos que desenvolver um "sistema imunológico informativo" - para proteger nossas mentes do ataque online a epistemologia ou a construção de sentido certas são fundamentais.


Há também o problema da “desencarnação”, que é galopante no mundo virtual. Como gastamos menos tempo em relações corporais com outras pessoas, nos sentimos menos conectados ao mundo real. Schmachtenberger argumenta que, mais do que nunca, devemos buscar relacionamentos offline, equilibrar nosso mundo online com a experiência incorporada do mundo real e gastar tempo cultivando relacionamentos no mundo real. É difícil entender o mundo se passarmos a maior parte do nosso tempo "na matriz".


A guerra contra a “construção de sentido” é na verdade uma guerra contra o ser humano, porque o ser humano é, em essência, uma criatura que busca “fazer sentido”, o que é nossa maldição e, também, nossa bênção. Os mesmos poderes que nos tornam tão adaptáveis e inteligentes são aqueles que nos tornam vulneráveis ao auto-engano, como John Vervaeke frequentemente apontou na série Despertando da crise significado.


Os perigos dos conceitos


Daniel Schmachtenberger (e seus contemporâneos Jordan Hall, Bonnitta Roy e outros) têm trabalhado arduamente para criar anticorpos para as atuais ameaças existenciais, na forma de conceitos práticos, como “construção de sentido", soberania, Jogo B e Regra Omega. Esses neologismos se tornaram memes, estão se espalhando como fogo em certas subculturas.


O brilho e a utilidade de tais formulações devem ser celebrados; entretanto, o perigo permanece: e se esses conceitos positivos fossem, eles próprios, transformados em armas, distorcidos, mal utilizados para manipulações de um outro tipo?


Na verdade, isso já aconteceu, como Schmachtenberger nos diz no The War on SensemakingII. A armamentação pode acontecer com qualquer conceito e em vários níveis.


Depois de apresentar a Regra Omega com Jordan Hall, Schmachtenberger observou um fato interessante: que a regra Omega também poderia ser transformada em arma. As pessoas já tentaram usar esse conceito para benefício pessoal, para sinalizar a virtude de estar associado a um grupo, para argumentar a favor de uma ideologia e em outras estratégias inconscientes ou nefastas.

Se você estudar a desinformação, perceberá que não é surpreendente que uma boa técnica de pacificação possa ser facilmente usada a serviço da guerra. Schmachtenberger argumenta que qualquer conceito ou boa ideia pode ser transformado em arma para o mal, mesmo que nasça de uma intenção nobre.

Como tal, pode ser perigoso terceirizar nossa “construção de sentido” para conceitos - em vez disso, precisamos incorporá-los em nossas palavras e ações. Lutar com a cobra da auto decepção e ilusão, e tentar construir um mundo melhor desta forma é um jogo difícil. Mas é o único jogo que vale a pena jogar


Conclusão: Construção de Sentidos Simbióticos


Apesar de todos esses desafios, os seres humanos são criados únicamente para a “construção de sentido” e de coerência, o que pode ser percebidonas incríveis capacidades de coordenação do corpo humano.


Schmachtenberger usa o exemplo da visão Parallax. Nossos dois olhos são separados, mas trabalham juntos em uma relação simbiótica com toda a visão. Talvez as células cancerosas estejam em guerra com o corpo como um todo - jogando jogos de vitória / derrota de soma zero - mas as células saudáveis trabalham em uma sinfonia a serviço da função de ordem superior do corpo. Schmachtenberger fecha ‘War on Sensemaking’ com o seguinte:


"As células são criadoras de sentido e comunicam seus sinais umas com as outras. Todas estão sinalizando, mas elas não têm uma relação teórica de jogo umas com as outras: na verdade, elas têm uma relação mutuamente simbiótica entre si. Eles estão apoiando a “construção de sentido” umas das outras dessa forma. Os pulmões obviamente se saem melhor, se o coração estiver melhor.
Então, se nós pudéssemos começar a imaginar que tipos de processos de comunicação ou protocolos teriam que acontecer entre humanos para viabilizar a correção de erros nas percepções dos indivíduos, e ao mesmo tempo, permitir que as partes verdadeiras das percepções de todos fossem separadas das partes de erro, para que então todas as partes verdadeiras pudessem ser sintetizadas em uma taxa mais alta de complexidade e os indivíduos pudessem fazer isso por conta própria. Quando pensamos sobre a civilização do futuro e a inteligência coletiva do futuro, podemos pensar dessa forma."