Só é amor se há limites entre eu e você

Eu tinha começado um relacionamento há pouco mais de 2 meses, e havíamos combinado de passar pela primeira vez o final de semana inteiro juntos. Preparei tudo, comprei as comidas que ele gostava, criei várias expectativas, reorganizei meus planos, e logo no início do final de semana o telefone do meu namorado tocou. Era uma amiga dele ligando para dizer que precisava encontrar com ele porque estava em um mal momento emocionalmente.


Eu definitivamente não gostei daquela interrupção no tão esperado final de semana romântico, e depois de alguma deliberação interna ele veio me dizer que decidiu ir ao encontro da amiga, ao menos por algumas horas. Ele sabia que naquela situação alguém ficaria chateada, e fez a opção que fazia mais sentido para ele naquele momento.


Na hora de me contar sua decisão, ele elaborou seus argumentos de uma forma tão organizada - firme e ao mesmo tempo respeitosa, segura e ao mesmo tempo cuidadosa - que eu simplesmente fiquei sem reação. Eu não estava acostumada com esse tipo de interação.


Por mais de 30 anos da minha vida eu me acostumei com apenas duas opções:

  • ou eu faço o que que o outro quer para não decepcioná-lo

  • ou eu coloco meus limites de forma dura, rude e às vezes até agressiva.

E, claramente, uma coisa alimenta a outra em um ciclo de retroalimentação problemático. Como eu muitas vezes faço coisas que não quero para agradar o outro, quando vou colocar meus limites ou já estou com o copo estourando.





A busca desesperada por apego

Os psicólogos explicam que esse comportamento de querer agradar o outro para ser aceito reflete a nossa busca desesperada por apego, e pode se tornar um padrão ao longo da vida.


A Teoria do Apego foi desenvolvida pelo psicólogo John Bowlby no estudo com bebês, e reflete a profunda necessidade humana de criação de vínculos afetivos saudáveis que nos torne seguros e emocionalmente estruturados. De acordo com Bowlby, o sistema de apego essencialmente "faz" a seguinte pergunta fundamental: A figura de apego está próxima, acessível e atenta?


Se a resposta for “sim” nos sentimos amados, seguros, confiantes, mais livres para sermos quem somos - com mais capacidade de exercitar nossa autonomia e criar vínculos sociais saudáveis. Mas se a resposta for “não”, experimentamos nas nossas relações tamanha ansiedade e insegurança que tendemos a evitar ou tentar desesperadamente controlar o outro.


Fica nítido o quanto esse padrão se torna quase uma profecia auto realizada. Nossa busca de conexão é tão intensa, que sentimos medo, vergonha e culpa de colocar nossos limites e afastar o outro, o que torna as relações superficiais e potencialmente abusivas, resultando na desconexão que tanto queríamos evitar.


Sim, pois sem limites, não existe relação saudável.


“Limites refletem a distância na qual eu posso te amar e me amar simultaneamente.” Prentis Hemphill

Assista o vídeo do Gabor Maté para saber mais:




A falta de limites destrói a relação

Uma série de problemas emergem nas relações devido a falta de limites.


  • À primeira vista pode parecer bom conviver com alguém que não coloca limites, afinal, a pessoa pode ser muito agradável, aparentar flexibilidade, e fazer tudo que a gente quer. Mas com o tempo, vai se formando uma névoa em torno da relação - de vontades não explicitadas, expectativas não declaradas, mágoas passadas.

  • Se relacionar com quem não coloca limites claros envolve um enorme gasto de energia tentando adivinhar o que o outro quer dizer nas entrelinhas e às vezes uma sensação de que o vínculo é extremamente superficial. Você pode ter a sensação de nunca se sentir verdadeiramente íntimo dessa pessoa.

  • Quando não colocamos limites, é natural começar também a esperar que o outro não coloque limites para mim, e quando isso acontece me sinto ressentida e frustrada. “Eu faço tudo por você, custa fazer isso por mim?” .

  • A falta de limites também é refletida na dificuldade que tenho de perceber o que me separa do outro. Isso faz com que eu veja o outro como um reflexo meu - ele deve pensar como eu, agir como eu, se vestir como eu, ter os mesmos sonhos, visões de mundo, personalidade. Como consequência tenho a tendência de querer controlar o outro e não consigo legitimar suas vontades e individualidades.

  • Quando não criamos limites, nos misturamos do outro a tal ponto que nossa empatia pode se tornar problemática. É o típico caso de cuidadores que começam a sugar os problemas e angústias do outro a tal ponto que também se tornam doentes.


Como criar limites que alimentam as relações


Na Biologia existe um conceito, o efeito de borda, que sugere que as fronteiras dos ecossistemas são os lugares de maior biodiversidade. Na Natureza, as zonas de borda podem ser a área entre rios e margens, ou entre planícies e florestas. Por exemplo, nos 20% externos de um lago há 80% da vida nesse ecossistema. Penso que limites também podem ser fontes de grandes pontos de conexão nas nossas relações.



“Não podemos nos conectar com alguém, a menos que a gente saiba onde nós terminamos e os outros começam.” Brené Brown

1. Encontre o seu jeitinho

É preciso encontrar o seu jeito de colocar limites. Algumas pessoas são muito boas em falar, outras em escrever, outras em mandar áudios porque conseguem se preparar antes. Algumas pessoas são facilmente bem humoradas, e conseguem adicionar uma pitada de humor no momento de colocar limite, outras são mais sérias e diretas. Não existe um jeito único de colocar limites, e desde que você traga clareza, você pode testar até encontrar o seu.


2. Incluir gatilhos de conexão

Para mim o limite pode ser uma fonte de conexão ou de desconexão. Embora sempre haja o risco de nos desconectarmos, podemos cuidar para que esse seja um momento no qual nos conhecemos mais um ao outro, e conseguimos usar esse evento como oportunidade para evoluir nossa relação e gerar aprendizado.


É muito fácil cair no lugar de ser intolerante ou abusivo ao colocarmos nossos limites. Um bom exemplo é a forma como adultos colocam limites nas crianças, dizendo o que eles devem fazer sem criar oportunidade de escutá-los ou ampliar seu entendimento do porque aquilo é importante. “Vai dormir agora. Por que? Porque eu tô mandando”.


Uma forma de fazer isso é comunicando não só o que você NÃO quer, e começar a sua interação validando o outro. É mais fácil se conectar com alguém que diz “Está tudo bem ficar bravo, mas não tá tudo bem levantar a voz”, do que com alguém que diz apenas “Não grite comigo.” (Fonte: Atlas of the Heart - Brené Brown)


Outra forma de criar um gatilho de conexão ao colocar limite é trazendo dados de contexto. Ao invés de dizer “Não vou no seu aniversário” você pode dizer “Essa foi uma semana muito desafiadora no meu trabalho, e embora eu quisesse estar com você nessa data especial, estou tão cansada que vou optar por priorizar meu descanso.”


3. Peça consentimento

Precisamos urgentemente incorporar nas nossas relações a lógica do consentimento. Pedir consentimento é algo que vem se popularizando nos últimos anos, com as crescentes denúncias de casos de abuso. E podemos aplicar a todas as nossas relações simplesmente deixando de assumir que o outro quer o mesmo que eu.


Assim como, um homem não deve assumir que a mulher quer transar porque ela está beijando, ou que ela quer transar hoje porque transou ontem, nós também podemos criar o hábito de consultar as pessoas sempre que vamos fazer algum movimento na relação que envolve o outro. Desse modo, evitamos correr o risco de ultrapassar os limites e sermos abusivos.


Aprender a trazer mais limites nas nossas relações envolve não só colocar os nossos limites, mas também buscar continuamente não ultrapassar os limites dos outros. Para isso fazemos checagens constantes, e criamos nas nossas relações um padrão positivo de respeitar os limites uns dos outros.


4. Amplie seu repertório

Por último, podemos incorporar nas relações os diferentes tipos de limites. A psicóloga Nicole LePera sugere pelo menos quatro tipos de limites:

  • Limite de tempo: “Nos sábados, eu nem sempre estou no telefone, então te respondo quando eu puder”

  • Limite financeiro: “Posso te emprestar dinheiro, mas preciso que me devolva em 3 meses. Funciona para você?”

  • Limite emocional: “Eu não estou em condições para ouvir isso agora, podemos ter essa conversa depois?”

  • Limite físico: “Por favor, não entre no meu quarto sem perguntar.”

Com a prática, colocar limites pode ficar cada vez mais natural para você, então bora praticar? Baixe aqui o Inventário Amuta com mais de 30 práticas de conexão: https://www.institutoamuta.com.br/inventario